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Artigo doutrinário

Os desafios do papa Leão XIV com as finanças do Vaticano

José Maurício ContiPublicado originalmente no JOTA (jota.info)

Papa Leão XIV terá uma árdua missão pela frente que pouco tem a ver com religião: cuidar das finanças do Vaticano

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Citação acadêmica

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ABNT
CONTI, José Maurício. Os desafios do papa Leão XIV com as finanças do Vaticano. jota_import, 15 maio 2025. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-fiscal/os-desafios-do-papa-leao-xiv-com-as-financas-do-vaticano. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/jose-mauricio-conti/os-desafios-do-papa-leao-xiv-com-as-financas-do-vaticano. Acesso em: 21 maio 2026.
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Conti, J. M. (2025, May 15). Os desafios do papa Leão XIV com as finanças do Vaticano. *jota_import*. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-fiscal/os-desafios-do-papa-leao-xiv-com-as-financas-do-vaticano
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No último dia 21 de abril, faleceu o cardeal Jorge Mario Bergoglio, o papa Francisco, deixando vago o cargo de chefe de Estado do Vaticano.

O Vaticano é um Estado bastante peculiar. O menor do mundo em extensão territorial, com 0,44 km2, ocupa área equivalente a 61 campos de futebol, sendo muito menor do que qualquer bairro da cidade de São Paulo[1].

Apesar de sua dimensão territorial reduzida, o Vaticano exerce expressivo poder político, pois o papa é o líder da religião católica, que atualmente reúne cerca de 1,406 bilhão de fiéis, representando aproximadamente 17,5% da população mundial[2].

O poder financeiro do Vaticano também é altamente significativo, embora difícil de estimar com precisão devido à opacidade de suas finanças e à descentralização em inúmeras organizações espalhadas pelo mundo. Presume-se, contudo, que seu patrimônio esteja entre US$ 10 e US$ 15 bilhões, incluindo mais de 5.000 propriedades em diversos países[3]

As finanças do Vaticano têm uma longa história, por óbvio, confundindo-se com a origem do cristianismo e da Igreja Católica.

Nos primeiros séculos, a Igreja cristã vivia de doações voluntárias e possuía poucos bens. Essa realidade mudou no século 4º, com a legalização do cristianismo por Constantino e as generosas doações imperiais, que permitiram a formação de um vasto patrimônio eclesiástico. Na Alta Idade Média, a Igreja tornou-se grande proprietária de terras, sustentada por doações, isenção tributária e pelos dízimos.

Durante a Idade Média, consolidou-se como a instituição mais rica da Europa, com rendimentos oriundos dos dízimos, propriedades rurais, taxas eclesiásticas e doações votivas. O papado criou estruturas administrativas para gerir seus recursos e combater abusos como a simonia. No final da Idade Média, a venda de indulgências financiou grandes obras, mas gerou críticas, culminando na Reforma Protestante do século 16, que resultou na perda de territórios, fiéis e receitas para a Igreja.

A Contrarreforma buscou restaurar a moralidade e a disciplina eclesiástica, limitando abusos e fortalecendo o controle financeiro da Santa Sé[4]. Nos séculos 17 e 18, o regalismo e o Iluminismo levaram à limitação do poder econômico da Igreja em vários países. Na Revolução Francesa, seus bens foram nacionalizados, e o clero passou a ser sustentado pelo Estado. O movimento napoleônico ampliou essas medidas, enfraquecendo o patrimônio e a autonomia eclesiástica.

O papado ainda governava os Estados Pontifícios, que lhe garantiam recursos até serem tomados pelo Reino da Itália em 1870. Com isso, iniciou-se a “Questão Romana”, encerrada apenas em 1929 com o Tratado de Latrão, que reconheceu o Vaticano como Estado soberano e garantiu uma significativa indenização financeira à Santa Sé. Bem administrado por Bernardino Nogara, esse capital consolidou a base das finanças vaticanas modernas, permitindo à Igreja operar como um investidor global a partir do século 20.

Após o Tratado de Latrão, o Estado da Cidade do Vaticano criado em 1929 dotou a Igreja de uma estrutura administrativa própria para gerir seu patrimônio e finanças. Pio XI fundou em 1929 a Administração Especial da Santa Sé, para gerenciar o capital indenizatório recebido da Itália e os bens adquiridos com ele[5].

Tal órgão foi precursor da atual Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA), instituição estabelecida formalmente em 1967 pelo papa Paulo VI. A APSA é responsável por administrar as propriedades imobiliárias do Vaticano (prédios, terras) e os investimentos financeiros da Santa Sé, funcionando na prática como o tesouro e o fundo soberano do Vaticano. É por meio dela que o papa, como chefe supremo, gere o chamado patrimônio da Sé Apostólica, garantindo recursos para as atividades da Igreja mundial e da Cúria Romana.

Outra instituição-chave é o Instituto para as Obras de Religião (IOR), popularmente conhecido como o Banco do Vaticano. O IOR foi criado em 1942 pelo papa Pio XII, sucedendo uma comissão anterior de caridade, com a finalidade de custodiar e administrar fundos destinados a obras religiosas ou caritativas e atender às contas bancárias de ordens religiosas, dicastérios e altos membros do clero.

Embora seja frequentemente chamado de “banco”, o IOR não é um banco comercial tradicional – trata-se de uma instituição financeira vaticana sui generis, que gerencia depósitos e investimentos de entidades católicas de todo o mundo. Nas décadas pós-guerra, o IOR ganhou proeminência e tornou-se o canal principal de muitas transações financeiras da Santa Sé. Contudo, ele também se envolveu em polêmicas.

Entre os anos 1970 e 1980, o IOR esteve no centro de escândalos de lavagem de dinheiro e operações ilícitas vinculadas à máfia italiana e a bancas fraudulentas. O caso do Banco Ambrosiano, cujo colapso em 1982 levou ao misterioso assassinato do banqueiro Roberto Calvi, expôs uma rede de corrupção envolvendo dirigentes do IOR (como o bispo Paul Marcinkus) e esquemas de financiamento ilegal.

Ou ainda o caso que voltou à mídia recentemente, em face do conclave, envolvendo o cardeal Giovanni Becciu, condenado em 2023 a cinco anos e seis meses de prisão, acusado de corrupção pelo desvio de US$ 200 milhões da Santa Sé, por utilizar recursos da Secretaria de Estado para investir em fundos de alto risco e comprar um imóvel de luxo em Londres. Esses escândalos abalaram a imagem da Igreja e evidenciaram a necessidade de reforma e supervisão mais rigorosa de suas finanças [6],[7].

A partir dos anos 2000, o Vaticano empreendeu esforços para promover transparência e controle financeiro. O papa Bento XVI deu os primeiros passos criando em 2010 a Autoridade de Informação Financeira (AIF, hoje rebatizada ASIF), um órgão de supervisão para prevenir lavagem de dinheiro e monitorar as atividades financeiras vaticanas.

Foi, porém, sob o papa Francisco que as reformas de transparência ganharam novo impulso. Em 2014 Francisco criou a Secretaria para a Economia, com status de dicastério equiparável a um ministério de finanças, conferindo-lhe “autoridade sobre todas as atividades econômicas e administrativas da Santa Sé e do Estado da Cidade do Vaticano”.

Simultaneamente, estabeleceu o Conselho de Economia, composto por oito cardeais e sete especialistas leigos em finanças, para orientar e fiscalizar as políticas econômicas. Medidas concretas logo se seguiram: o sigilo bancário no IOR foi abolido, e cerca de 5.000 contas suspeitas foram fechadas. A AIF (autoridade financeira) teve seus poderes reforçados para auditoria e cooperação internacional.

Em 2020, pela primeira vez, o Vaticano adotou um Código de Contratações Públicas, estabelecendo licitações transparentes para evitar desvios em contratos. Essas iniciativas, aliadas à nomeação de auditores profissionais e até de um procurador antimáfia no tribunal vaticano, resultaram em processos penais de alto nível (incluindo o julgamento de um ex-presidente do IOR por peculato em 2021) e melhoraram a reputação financeira da Santa Sé[8].

Atualmente, a estrutura financeira do Vaticano se apoia em: (a) APSA, que administra o patrimônio estável (imóveis e investimentos); (b) IOR, que lida com fundos de ordens e entidades católicas, operando sob normas internas e internacionais de compliance; (c) Secretaria para a Economia, que elabora o orçamento anual, supervisiona as contas de todos os dicastérios e publica relatórios financeiros consolidados; (d) Secretaria de Estado – Seção de Assuntos Gerais, que gere o Óbolo de São Pedro (coleta mundial para caridade do Papa) e outros fundos especiais; (e) Conselho de Economia e órgãos de auditoria, que garantem a prestação de contas.

O Vaticano possui duas entidades orçamentárias distintas: o orçamento da Santa Sé (que cobre a Cúria Romana, nunciaturas e atividades pastorais globais) e o orçamento do Estado da Cidade do Vaticano (relativo à administração do território, serviços urbanos, Museus Vaticanos etc.).

As receitas modernas do Vaticano vêm principalmente de doações internacionais (como o Óbolo e contribuições das dioceses de todo o mundo), rendimentos de investimentos e propriedades, receitas dos Museus do Vaticano (turismo religioso) e publicações, além de eventuais excedentes do IOR. Em 2013, o orçamento operacional da Santa Sé foi da ordem de US$ 300 milhões, enquanto os ativos patrimoniais ultrapassavam US$ 1 bilhão.

Entretanto, despesas crescentes têm causado déficits frequentes nas últimas décadas. A redução do número de católicos praticantes em alguns países e os escândalos passados diminuíram as doações em certos anos. Mesmo assim, a Igreja continua a contar com a generosidade dos fiéis e a rentabilidade de seus investimentos.[9],[10].

Estima-se que o déficit do Vaticano tenha alcançado € 83,5 milhões em 2023 — um aumento de 7% em relação a 2022 — impulsionado pelo crescimento das despesas operacionais, que chegaram a € 1,236 bilhão no mesmo ano. A esse cenário soma-se um rombo no fundo de pensões dos funcionários da Santa Sé, em torno de € 1,5 bilhão[11]. Esse cenário exigirá do novo papa ações efetivas no sentido de tornar sustentáveis as finanças do Vaticano.

Leão XIV assume com o grande desafio de equilibrar a gestão profissional dos recursos com a missão espiritual, num contexto de escrutínio público crescente sobre a ética e a transparência. Os avanços recentes – auditorias externas, publicação de balanços e tolerância zero com corrupção – indicam a determinação do Vaticano em manter suas finanças em ordem e alinhadas aos princípios morais que defende.

Como se pode constatar, falar sobre as finanças do Vaticano exige muito mais tempo e espaço do que permite esta breve coluna. Muito mais exigiria ao se falar das finanças de toda a Igreja Católica, o que é tema para muitos outros estudos e reflexões.

Enquanto os brasileiros estão atualmente às voltas com outro leão – o do Imposto de Renda –, o Vaticano tem o seu Leão, o XIV, que, além de se preocupar com os rumos da Igreja Católica e com os diversos dilemas a que está sujeita, terá uma árdua missão pela frente, que pouco tem a ver com religião, e muito com finanças públicas e Direito Financeiro. Ficam os desejos de boa sorte ao Sumo Pontífice!


[1] Para se ter uma ideia, em valores aproximados, na cidade de São Paulo o bairro da Liberdade tem 1,2km2, Vila Olímpia tem cerca de 2 km², Itaim Bibi tem aproximadamente 2,5 km² e Jardins em torno de 4 km². No Rio de Janeiro, o Leblon: possui uma área de aproximadamente 2,15 km², Ipanema: abrange cerca de 3,08 km² e Copacabana: tem uma extensão de aproximadamente 5,22 km².

[2] Dados mais recentes do Annuario Pontificio 2025 e do Annuarium Statisticum Ecclesiae 2023.

[3] A Igreja Católica é rica mesmo? Eis o que o sucessor do Papa Francisco encontrará. In Veja, 24.4.2025 (https://veja.abril.com.br/economia/a-igreja-catolica-e-rica-mesmo-eis-o-que-o-sucessor-do-papa-francisco-encontrara/)

[4] A Santa Sé exerce a autoridade eclesiástica suprema e coordena missões, nunciaturas, dicastérios e órgãos centrais da Igreja, enquanto o Estado da Cidade do Vaticano, criado em 1929 pelo Tratado de Latrão, é responsável pela gestão territorial, infraestrutura e soberania civil. Cada entidade possui orçamento próprio, ainda que haja interdependência funcional.

[5] Jornal italiano diz que Vaticano construiu império com dinheiro de Mussolini (In O Globo, 22.1.2013 - https://oglobo.globo.com/mundo/jornal-diz-que-vaticano-construiu-imperio-com-dinheiro-de-mussolini-7367393#:~:text=depois%20de%20milh%C3%B5es%20recebidos%20do,cerca%20de%20US%24%20904%20milh%C3%B5es).

[6] De onde vem a fortuna da Igreja Católica? (In Superfinanças, 22.4.2025 - https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/rfi/2025/04/21/papa-francisco-deixa-legado-de-reformas-nas-financas-do-vaticano.htm#:~:text=Em%202014%2C%20o%20papa%20emitiu,leigos%20especialistas%20no%20setor%20financeiro / https://www.swissinfo.ch/por/sanear-as-finan%C3%A7as-do-vaticano%2C-o-eterno-desafio-dos-papas/89298306?utm_source=chatgpt.com)

[7] O que levou à condenação o cardeal afastado pelo papa Francisco que agora quer votar no Conclave (In G1, 23.4.2025 - https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/04/23/cardeal-que-desafiou-o-papa-e-quer-votar-no-conclave-foi-condenado-por-corrupcao.ghtml).

[8] Vide nota de rodapé 6.

[9] Economia do Vaticano (In Wikipedia, acesso em 13.5.2025 - https://pt.wikipedia.org/wiki/Economia_do_Vaticano#:~:text=A%20economia%20do%20Vaticano%20%C3%A9,os%20programas%20sociais%20que%20desenvolve).

[10] O Brasil é um dos países que mais contribuem para o Óbolo, registrando o terceiro lugar em 2023, tendo os fiéis brasileiros doado € 1,9 milhão, ficando atrás apenas dos EUA e da Itália.

[11] As finanças do Vaticano que o Papa Leão XIV acaba de herdar. In Valor Econômico, 9.5.2025 (https://valor.globo.com/mundo/noticia/2025/05/09/as-financas-do-vaticano-que-o-papa-leao-xiv-acaba-de-herdar.ghtml?).

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