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Artigo doutrinário

A ignorância gera mais autoconfiança do que o conhecimento

Marçal Justen FilhoPublicado originalmente no JOTA (jota.info)

Conhecimento e ignorância: o problema afeta a vida acadêmica e também a convivência democrática

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Citação acadêmica

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ABNT
FILHO, Marçal Justen. A ignorância gera mais autoconfiança do que o conhecimento. jota_import, 20 set. 2022. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/publicistas/a-ignorancia-gera-mais-autoconfianca-do-que-o-conhecimento. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/marcal-justen-filho/a-ignorancia-gera-mais-autoconfianca-do-que-o-conhecimento. Acesso em: 21 maio 2026.
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Filho, M. J. (2022, September 20). A ignorância gera mais autoconfiança do que o conhecimento. *jota_import*. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/publicistas/a-ignorancia-gera-mais-autoconfianca-do-que-o-conhecimento
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Estudos indicam que as pessoas destituídas de conhecimento tendem a desconsiderar as próprias limitações. A ignorância produz desempenho pífio, mas o agente é incapaz de reconhecer as suas falhas. Indagado sobre a sua atuação, o sujeito afirma a sua própria excelência. Limitado quanto ao conhecimento, também carece de sabedoria. Revolta-se contra críticas. 

Essa tese ficou conhecida como “efeito Dunning-Kruger”, baseada em estudo de dois professores da Universidade de Cornell. O trabalho refletiu a experiência do magistério. Os autores observaram que os alunos com pior desempenho usualmente afirmam-se injustiçados, reputando serem titulares de conhecimento satisfatório sobre os conteúdos. Já os melhores alunos apresentavam um juízo crítico quanto à própria atuação.

É problemático generalizar a aplicação do “efeito Dunning-Kruger” a todos os campos da existência humana. Isso exigiria estudos mais aprofundados. 

Mas não é despropositado argumentar que a ignorância afeta a autoavaliação das pessoas. Seja no âmbito acadêmico, seja fora dele. Isso se torna mais evidente com o amplo acesso às redes sociais. 

É usual pessoas destituídas de conhecimento sobre um tema especializado manifestarem opiniões subjetivas, sem fundamento lógico ou respaldo científico. O sujeito é incapaz de distinguir a tecnologia 5G da 4G, mas não tem constrangimento em defender que aquela é um veículo para eliminação da autonomia individual. A convicção pessoal torna-se o critério de certeza objetiva. Há casos em que a pessoa está disposta a morrer (e a matar) por essas convicções arbitrárias. Os exemplos estão na nossa vida cotidiana.

Esse tipo de meditação reflete usualmente a pressuposição de que o efeito Dunning-Kruger se verifica apenas em relação a sujeitos simplórios, que não integram as “elites” e que seriam intelectualmente “inferiores”. Isso é um equívoco.

Quantas vezes presenciei pessoas qualificadas e com ótima reputação formularem juízos equivocados sobre temas que desconheciam! A vida acadêmica é repleta dessas experiências. E a vida profissional do Direito, igualmente. A aprovação em concurso público ou no exame da Ordem ou a investidura em tribunal não é garantia da ausência da ignorância. Ninguém sabe tudo sobre tudo. 

Nesses dias, há um espetáculo contínuo da exposição ilimitada da ignorância. Duvidar de si mesmo parece ter-se tornado uma falha de caráter.

A humildade é fundamental para a sabedoria. Mas é também essencial para a democracia. O combate à ignorância – e ao fanatismo dele resultante – não é uma questão puramente individual, nem é relevante apenas no âmbito privado. A experiência democrática pressupõe a autocontenção, o reconhecimento dos limites individuais e o respeito à opinião alheia. Reconhecer que, talvez, não estejamos certos é imprescindível. O fascismo se alimenta das certezas absolutas, de ausência de dúvidas.

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