As notícias políticas dos últimos dias são devastadoras. Como todos sabem, os donos da JBS, em delação premiada, entregaram à Procuradoria da República gravações onde o Presidente Temer avalizaria a entrega de uma mesada ao ex-deputado (e nunca ex-bandido) Eduardo Cunha, fato esse que restou inconclusivo com a liberação das gravações. Nessa mesma delação, cita que o senador Aécio Neves solicitou dois milhões de reais ao grupo JBS para pretensamente pagar advogados com sua defesa na Lava Jato. Dinheiro esse que nunca foi para advogados mas sim para o bolso de outro senador, desta feita o senador Zezé Perrella, de Minas Gerais.
A situação, como diria a ex-presidente Dilma, é estarrecedora. Ou como diria o outro ex-presidente, “nunca antes na história desse país” se viu coisa parecida. Por tudo que vimos (e ouvimos) nos últimos dias, fica claro que não há condições políticas do presidente Temer continuar. O que seria menos traumático seria a sua renúncia, mas isso não ocorrerá. O presidente Temer nunca foi político de gestos largos e grandes pronunciamentos. Até agora ninguém sabe o que realmente pensa. Ninguém nunca ouviu qualquer ideia sobre economia ou desenvolvimento da boca dele. Isso porque ele não as tem.
O presidente Temer sempre foi homem dos bastidores, da manobra política e dos escaninhos do poder. Seu destino sempre foi de coadjuvante, de manobrista do poder. Eis que o Poder caiu em seu colo, e aí se livrar dos seus comparsas pareceu impossível. Agora apresenta-se em uma encruzilhada que o remete ao um grande dilema: ficar ou não ficar.
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O que é lamentável é que o Governo Temer, apesar de extremamente impopular, estava (milagrosamente) conseguindo avançar a agenda econômica no Congresso como há quase vinte anos não se via. Conseguiu aprovar a emenda do Teto, de importância para tentar resolver o caos econômico das finanças públicas, também deixou bem encaminhada a necessária reforma trabalhista e andava a passos largos para reformar o sistema previdenciário. Fez muito em apenas um ano de governo.
Aliás, o ímpeto reformista era o que acalmava o mercado e o grande capital e chancelava sua permanência no cargo. Com as delações e todo o imbróglio em que se meteu, dificilmente Temer conseguirá avançar nas reformas prometidas. As articulações são complexas e o quórum para aprovar uma emenda constitucional é elevado. Nesse cenário, como o Governo sobreviverá, ou melhor, como sobreviveremos até 2018? A impressão que tenho é que chegaremos a 2019 e nunca a 2018. Me parece que o ano de 2018 nem mesmo existe no calendário!
Resta perguntar, como já fiz outras vezes, em que mundo esse povo vive? Apesar da operação Lava Jato ter se mostrado implacável e todos terem visto o festival de terror das delações de canto a canto, continuaram a achacar empresários para pedir propina. Vejam que essa gravações foram feitas ainda esse ano, nos escombros do terremoto que soterrou o PT e todos os seus financiadores. Esse empresários, como Eike, os irmãos Batista, Odebrecht, e tantos outros tinham acesso livre ao Palácio do Planalto e se discutia propina e vantagens como se fosse mais um negociação empresarial. Como pode?
Na mesma cepa veio a gravação do senador Aécio Neves, que comandava um dos mais importantes partidos do país. Pediu dinheiro para pagar advogados e ainda mentiu, entregando o dinheiro para terceiros. Aliás, por que deveriam os donos da JBS dar dinheiro a Aécio para pagar advogados nas ações da Lava Jato? Evidente que somente chantagem de parte a parte justificariam esse comportamento.
Outra coisa extraordinária é que esse povo pede propina de milhões como se tratasse de dois tostões quaisquer. A JBS deu mais de 300 milhões de reais declarados (caixa 1) para diversos políticos em 2014 (mais de 1800 segundo eles). Quanto não deu de caixa 2? Aécio Neves foi afastado do cargo e seu caminho provavelmente é fazer companhia aos amigos de Curitiba.
Se estamos no caos, qual a saída? Dória? Sinceramente, não sei. Por enquanto vive na redoma e na zona de conforto em eventos de bacanas aqui e alhures. Tem que aparecer no nordeste, mostrar ideias econômicas, mobilizar a juventude e dar esperança que saiamos de buraco. Não sei se tem tanta ideia assim. Essa conversa de gestão é importante, mas é pouco, muito pouco. Precisamos ter um projeto nacional, um projeto de Brasil grande, capaz e confiante.
O perigo dessa imensa desilusão na política e a viabilização de candidaturas extremistas (Bolsonaro) e os aventureiros de sempre (Ciro Gomes), nesse último caso, um verdadeiro gigolô de partido político que já pousou e criou confusão em uma dezena de siglas. Sem falar na pior opção de todas que seria a volta de Lula, que legitimaria todos os conchavos feitos, prometendo a boia salvadora a todos os políticos. Esse será o grande mote de Lula no mundo político, uma espécie de “batida salve todos”.
Essa desilusão é uma grande chance para em 2018 escolhermos melhor e acreditar que um novo ciclo de desenvolvimento pode ser retomado. Se o país chegar até 2018, é claro. Seremos mais uma vez o país do futuro do pretérito?