Houve época, no primeiro ano do resto de nossas vidas (ou seja: no ano passado), ali por abril ou maio, em que mergulhamos num frenesi de lives. Um celular na mão, uma ideia na cabeça - uma palestra jurídica na tela. O mundo do Direito, que já não vivia de poucas comunicações orais, foi tomado por cabecinhas pensantes movidas a likes. Drummond anotou que a vida é curta mas os dias são longos; faltou dizer que as palestras jurídicas são muitas, às vezes terrivelmente longas.
Claro que não é viável falar coisas novas ou interessantes todo o tempo. Então é aquilo: o palestrante palestra a outros palestrantes, que, por sua vez, palestrarão palestras parecidas. Poderia ser uma rima: é uma solução. E, sim, é frequente que os temas decorram de modismos. A Lei de Liberdade Econômica já está passée. Compliance?, tãão 2019. A nova lei de licitações, quando entrar inteiramente em vigor, estará datada. Lembra quando o blockchain era legal em palestra? Pois é. A palestra jurídica tem pressa.
Apesar de hiperansiosa, a palestra jurídica, virtual ou não, segue padrão clássico. Ela começa com elogios recíprocos. A julgar então pelos intróitos, o mundo dos juristas seria lugar em que as pessoas se gostariam profundamente. (Spoiler: não é assim.) Quanto ao conteúdo, o fato é que a maior parte das boas palestras são pessoas interessantes falando de coisas que talvez não sejam tão interessantes. Ainda assim, palestras são péssimas desculpas para você não ler o livro ou o artigo. É como uma live action a partir de um mangá: corta coisa demais, mas tenta compensar com gracinhas.
Como palestras de advogado não são comunicações científicas, seus debates não são debates; são, digamos, minipalestras solipsistas. E tome aquelas longuíssimas não-perguntas que se encerram assim: ´e então, o que você acha disso tudo que acabei de falar?´ Isso, claro, não é exclusividade do Direito, mas é acentuado por nossa egolatria de cada dia.
Nossos loucos de palestra são ainda mais loucos do que os dos outros. O que mostra como somos, afinal, especiais.
Seja como for, há formas de se extrair conteúdo útil de boa parte das palestras jurídicas. Há dicas válidas: palestrantes novos costumam ter novas ideias; identifique a nova série de palestras do palestrante frequente, e só assista ao início da temporada; palestras em ambientes acadêmicos tendem a ser mais profundas; palestras em ambientes de negócios são exposições de venda; se a palestra é divertida demais, talvez seja mais entretenimento do que conteúdo etc.
Enfim: compreendemo-nos ao compreender nossas idiossincrasias e rituais. Nem tudo em nossas palestras é energia útil; há dissipação de calor; há espuma; mas seguimos em frente, advogados e advogadas, entre elogios públicos e perorações, criando um Direito cada dia mais expansivo e, ao menos, superficialmente dialógico (o que já é um começo).
Mas você aí, com a mão levantada, gostaria de fazer uma colocação. Ouçamos.
O episódio 54 do podcast Sem Precedentes discute o julgamento da 2ª Turma do STF, que decidiu que Moro foi parcial em suas decisões no caso do tríplex do Guarujá contra Lula. Ouça:
https://www.youtube.com/watch?v=Xm3qid_RRA4
