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Artigo doutrinário

Não há meio-termo quando a República está em jogo

Publicado originalmente no JOTA (jota.info)

É fundamental que o STF ponha fim às emendas do relator e ao orçamento secreto, prática espúria e inconstitucional

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ABNT
SARMENTO, Daniel. Não há meio-termo quando a República está em jogo. jota_import, 9 nov. 2021. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/orcamento-secreto-emendas-relator-stf. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/daniel-sarmento/nao-ha-meio-termo-quando-a-republica-esta-em-jogo. Acesso em: 31 ago. 2026.
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Sarmento, D. (2021, November 9). Não há meio-termo quando a República está em jogo. *jota_import*. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/orcamento-secreto-emendas-relator-stf
Chicago
SARMENTO, Daniel. 2021. “Não há meio-termo quando a República está em jogo.” *jota_import*, November 09. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/orcamento-secreto-emendas-relator-stf
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Começa nesta terça-feira (9) no STF um julgamento colegiado fundamental para o futuro da nossa democracia. Apreciando ação ajuizada pelo PSOL (ADPF 854), a Ministra Rosa Weber concedeu medida cautelar suspendendo a execução das chamadas “emendas de relator” no orçamento federal. A decisão foi submetida ao plenário virtual do Supremo, que deve decidir a matéria até o final desta quarta-feira (10).

As “emendas do relator” correspondem a uma espécie de “orçamento secreto”. O relator da lei orçamentária tem a prerrogativa de separar muitos bilhões de reais para atender a pleitos de parlamentares, que lhe indicam gastos que desejam realizar. A efetiva liberação dos valores, em cada caso, depende de decisão do Poder Executivo. Não há transparência sobre quem solicitou os recursos, nem exigência de que os gastos se adequem a critérios de equidade e eficiência, que deveriam pautar toda utilização de verbas públicas em uma república democrática.

Nesse modelo antirrepublicano, recebem vultosos recursos os parlamentares que apoiarem o governo. E a sociedade nem mesmo fica sabendo quem são os deputados e senadores aquinhoados, pois há total opacidade no procedimento. É um expediente recentemente instituído, de que o governo se utiliza para comprar apoio parlamentar, com gasto de cifras bilionárias. Não à toa, o esquema vem sendo chamado de “Bolsolão”.

Diversas denúncias foram divulgadas  mostrando como esses recursos estavam sendo usados em “tenebrosas transações”, para gastos injustificáveis, notadamente a aquisição de tratores por preços superfaturados – o “tratoraço”. Apenas na véspera da votação da emenda constitucional do calote nos precatórios, o governo liberou quase R$ 1 bilhão para pagamento de emendas do relator – leia-se, para “recompensar” parlamentares alinhados.

É fundamental que o STF ponha fim à essa prática institucional espúria e inconstitucional. Não se trata de ativismo judicial, ou de intervenção do Supremo na esfera própria do Legislativo. Afinal, o papel institucional do STF é ser o guardião da Constituição, e o “orçamento secreto” viola gravemente a Carta de 1988, em especial o princípio republicano.

Tal princípio reclama não apenas transparência e publicidade no trato da coisa pública, como também que os recursos estatais sejam empregados com equidade e eficiência, de forma coerente com políticas públicas que estejam sendo implementadas. Verbas públicas são escassas, e não pertencem aos governantes de ocasião, mas à sociedade. Por isso, os recursos orçamentários não podem ser utilizados como moeda de troca, para premiar os parlamentares que apoiem o governo, sem qualquer consideração sobre equidade e eficiência dos gastos. Especialmente em momento de grave crise econômica, em que aumentam a fome e a miséria no país.

O governo Bolsonaro tem uma agenda de destruição da democracia. Se tiver condições políticas para isso, ele aprova emendas constitucionais e leis que podem desfigurá-la. O seu sonho é passar no Congresso boiadas contra os direitos humanos, o meio ambiente, as minorias, a imprensa, as instituições de controle. Manter as “emendas do relator” é fortalecer o seu poder de destruição.

Há um certo consenso de que a forma mais eficaz de prevenção e combate à corrupção é por meio do desenho adequado das instituições e de seus procedimentos. É difícil conceber prática que mais estimule a corrupção – inclusive no seu sentido jurídico-penal – do que o “orçamento paralelo”. Por tudo isso, aqueles que realmente se preocupam com a democracia e com combate a corrupção não podem transigir nessa matéria. Não há “meio-termo” possível quando a República está em jogo.

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