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Artigo doutrinário

O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior

Nas últimas cinco linhas de O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior, o leitor é surpreendido com a solução do mais recorrente enigma da literatura brasileira: a fidelidade (ou infidelidade) de Capitolina. E não se trata de um romance policial, como aqueles del

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior. conjur_import, 26 fev. 2023. Disponível em: https://conjur.com.br/2023-fev-26/embargos-culturais-livro-homem-odiava-machado-assis-jose-almeida-junior. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/o-homem-que-odiava-machado-de-assis-de-jose-almeida-junior. Acesso em: 30 set. 2026.
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Godoy, A. S. D. M. (2023, February 26). O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2023-fev-26/embargos-culturais-livro-homem-odiava-machado-assis-jose-almeida-junior
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Nas últimas cinco linhas de O Homem que Odiava Machado de Assis, de José Almeida Júnior, o leitor é surpreendido com a solução do mais recorrente enigma da literatura brasileira: a fidelidade (ou infidelidade) de Capitolina. E não se trata de um romance policial, como aqueles deliciosos livros do Garcia-Roza. Trata-se de um romance histórico, gênero dificílimo, que corre o risco de não ser nem romance, e nem história. Porém, em O Homem que Odiava Machado de Assis, o leitor tem muita história e muito romance. É um livro que não dá para parar de ler. E creio ser esse juízo o que melhor qualifique positivamente uma obra literária.

No contexto de uma trama muito bem engendrada, desfilam personagens de ficção (Pedro Junqueira, o principal deles, Nicole, Padre Narciso, Joana) e personagens reais (Machado de Assis, Carolina Novais, Nabuco, Alencar, Patrocínio, Cotegipe, Rio Branco). O autor explora o tema do ciúme em Machado de Assis, e o consequente/antecedente tema do adultério, que são os pontos condutores da narrativa, ainda que tecida em forma da epifania do ódio, indicado no título do livro. Há também temas paralelos de realidade indiscutível, a exemplo da aversão de Silvio Romero em relação a Machado de Assis.

O romance histórico precisa ter história (e José Almeida trata, entre outros da abolição da escravidão e do problema da mão-de-obra na lavoura do café). O romance histórico precisa ter romance (e o coração indeciso de Pedro Junqueira é convincente). O romance histórico precisa de um enredo que segure o leitor (e a relação entre Pedro Junqueira e Carolina Novais — esposa de Machado de Assis — resolve o problema). O romance histórico precisa de alguma precisão topográfica (e a descrição da Rua do Ouvidor e da confusão do cais Pharoux na hora do embarque são de precisão topográfica impressionante). A referência aos "tigres", escravos que levavam excrementos para o mar é também muito precisa.

O romance histórico não é o mundo do real, é o mundo do possível. É a história que aconteceu, ou que quase aconteceu, como nos explica Ruy Castro nas primeiras linhas de Os Perigos do Imperador, um Romance do Segundo Reinado. Essa ponte (ou tensão) entre realidade e possibilidade é que o romance histórico resolve em forma de verossimilhança.

O autor, José Almeida Júnior, é muito ousado e certamente feriu os idólatras do Bruxo do Cosme Velho. Em O Homem que Odiava Machado de Assis, o escritor fluminense é retratado como invejoso, complexado, corrompido pela vaidade. São muito ousadas as referências à esposa de Machado de Assis (sempre apresentada no cânone como companhia modelar e insuperável). O leitor tem duas opções: ofendido, deixa o livro de lado (sairá perdendo, garanto); ou então assume e compreende o óbvio, no sentido de que se trata de um romance, e que, portanto, ao autor é permitido criar. O leitor vai se chocar. Porém, garanto de novo, o resultado estético é imbatível, ainda que as formulações morais possam ser condenáveis, não do autor, bem entendido, mas dos personagens.

O Homem que Odiava Machado de Assis é a história de um brasileiro descendente de portugueses, muito rico, que perdeu a mãe e que foi inicialmente criado no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, pela mesma rica senhora que cuidou de Machado de Assis. Era tia do narrador. Com a morte da protetora, Pedro estudou no Pedro II, e mais tarde em Coimbra. No Porto, conheceu Carolina (que será esposa de Machado). Qualquer revelação do enredo, a partir daqui, seria deslealdade para com o leitor. Tem que ler.

Há no livro um problema que alcança todo autor de romance histórico, isto é, se escreve na época em que os fatos se passam. O perigo do anacronismo é cilada permanente. No caso, a situação ainda se complica porque parte da narrativa se passa em Portugal: xícara ou chávena?

Como acomodar em uma narrativa do século XIX expressões como "está de brincadeira", "borocoxô", "atolar de trabalho", "pegar no flagra", "pinguços", "bateu remorso" e tantas outras, que realmente não convivem com "ouvidos moucos". É necessário um pacto entre autor e leitor. Este último deve entender que é para ele que o livro foi escrito, e não para os imaginários contemporâneos da narrativa.

O tema da escravidão em Machado de Assis, que é fundamental em sua fortuna crítica, estimulou o autor na composição de um enredo de tirar o fôlego. De quebra, uma alusão ao plágio em Memórias Póstumas de Brás Cubas e um estudo supostamente psicológico da obsessão de Machado de Assis com o tema do adultério.

Na narrativa, até Machado de Assis tem uma amante (Inês Gomes) por conta de quem quase teria perdido o emprego no ministério, que tanto prezava. Será que Inês Gomes existiu? Chamada de "a desconhecida" na imagem de Lúcia Miguel Pereira (a grande biógrafa de Machado de Assis), essa estranha personagem é a prova definitiva de que José Almeida Júnior pesquisou profundamente o assunto. É, em resumo, um interessantíssimo livro que explora "a grande dor das coisas que se passaram" de certo verso de Camões.

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