Outros artigos de Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy
Importado da ConjurTexto preservado aqui para leitura direta — leia também na fonte original ↗
Artigo doutrinário

Processo Constitucional Brasileiro, de Abboud, um livro diferente

"Processo Constitucional Brasileiro", de Georges Abboud, é um livro diferente, exatamente no que esse adjetivo de dois gêneros exprime enquanto conceito: não é semelhante, igual, idêntico; é distinto. SpaccaO autor inicia com inusitada referência a Paul Klee (1879-1940), suíço de

Ler no Conjur Entrar para salvar Baixar PDF acadêmico Bookmarklet

Citação acadêmica

Copie a referência deste artigo no estilo da sua escolha e cole no seu trabalho. Geramos a citação no padrão exigido pela maioria das revistas jurídicas brasileiras. Ver guia completo.

Ver prévia das três referências▸
ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. Processo Constitucional Brasileiro, de Abboud, um livro diferente. conjur_import, 28 maio 2023. Disponível em: https://conjur.com.br/2023-mai-28/embargos-culturais-processo-constitucional-brasileiro-georges-abboud-livro-diferente. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/processo-constitucional-brasileiro-de-abboud-um-livro-diferente. Acesso em: 30 set. 2026.
APA
Godoy, A. S. D. M. (2023, May 28). Processo Constitucional Brasileiro, de Abboud, um livro diferente. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2023-mai-28/embargos-culturais-processo-constitucional-brasileiro-georges-abboud-livro-diferente
Chicago
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. 2023. “Processo Constitucional Brasileiro, de Abboud, um livro diferente.” *conjur_import*, May 28. https://conjur.com.br/2023-mai-28/embargos-culturais-processo-constitucional-brasileiro-georges-abboud-livro-diferente
BibTeX
@article{arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy-processo-constitucional-brasileiro-de-ab-2023,
  author = {Godoy, Arnaldo Sampaio de Moraes},
  title = {Processo Constitucional Brasileiro, de Abboud, um livro diferente},
  journal = {conjur_import},
  year = {2023},
  url = {https://conjur.com.br/2023-mai-28/embargos-culturais-processo-constitucional-brasileiro-georges-abboud-livro-diferente},
  urldate = {2023-05-28}
}

"Processo Constitucional Brasileiro", de Georges Abboud, é um livro diferente, exatamente no que esse adjetivo de dois gêneros exprime enquanto conceito: não é semelhante, igual, idêntico; é distinto.

O autor inicia com inusitada referência a Paul Klee (1879-1940), suíço de nacionalidade alemã, artista plástico versátil, associado de algum modo a tendências que variam do expressionismo ao pontilhismo, do surrealismo à Bauhaus. Abboud explora tema central do direito constitucional (e, portanto, um livro que se espera dogmático) principiando com referências a um pintor, aproximando direito e arte, no sentido de que "a arte é um farol que ilumina um caminho na construção da vigília". Para o autor, que é um jovem e bem preparado professor e advogado brasileiro, o direito, "como tantos outros produtos do espírito humano [seria] uma ferramenta de comprometimento com a manutenção dessa vigília".

Segue (ainda na parte introdutória) com referências a Vassily Kandinsky (1866-1944) e a Murits Cornelis Escher (1898-1972); é do quadro "Construções Impossíveis", desse último pintor, que Abboud fixa a capa desse livro diferente. Acostumados com livros de direitos que reproduzem colunas gregas e romanas ou martelos ou togas, temos, na expressão do canadense Marshall McLuhan a confirmação de que o meio é também mensagem.

Uma parte introdutória vincula o constitucionalismo ao processo civilizatório. Em passo inusitado (o que reforça a dissemelhança desse livro com qualquer outro no assunto) o autor retoma personagem de Chico Buarque de Holanda (Geni, da Ópera do Malandro) como indício comparativo e representativo da Constituição.

Se a cidade culpava Geni por tudo o que de errado e ruim havia, suplicando ajuda quanto tudo estava quase perdido, na mesma medida a cidade moderna culpa a Constituição por todos os nossos males, deprecando auxílio quando um mal maior se abate sobre nós. A comparação é inesperada e desafiadora.

O autor já havia tratado do tema em artigo publicado na RT (vol. 996/2018), quando dissertou sobre mitos (um mito é uma mentira) que marcam nossa percepção de Constituição, a exemplo de sua extensão, que é lugar comum entre os jogadores de pedra na Geni. Ela é maldita; a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos, dos moleques do internato; mas, e a deitar com homem tão nobre, preferia amar com os bichos.

Abboud é corajoso; captou com metáfora uma prostração que sintetiza um capítulo de ciência política. Ainda em tema de mitologia jurídica Abboud discorre na parte introdutória sobre pesada crítica que indevidamente pesa sobre o positivismo, isto é, que teria sido a fórmula jurídica que propiciou o pesadelo nazista. O assunto foi tratado (e esclarecido) por Rodrigo Borges Valadão (Positivismo Jurídico e Nazismo) bem como no capítulo IV de livro de minha autoria com Ingo Sarlet (História Constitucional da Alemanha).

A jurisdição constitucional é o ponto central do livro. O autor apresenta-nos uma teoria geral do controle de constitucionalidade, opondo defensores e críticos desse arranjo institucional, com foco em suas funções principais: extensão e limites do poder público, reconhecimento e garantia de direitos de minorias, operacionalidade da proteção dos direitos humanos (dispostos na Constituição e nos Tratados Internacionais), a par da preservação da autonomia do Direito, no limite, a defesa da própria Constituição.

O autor em seguida explica os vários modelos de controle de constitucionalidade. Há ponto que chama a atenção pela clareza dos conceitos. Define sentenças interpretativas (distinguindo interpretação conforme à Constituição e arguição de nulidade sem redução de texto), trata das sentenças manipulativas (quando a Corte comporta-se como se legislador fosse), bem como do aliciante tema das sentenças aditivas, que Abboud define como “aquelas nas quais a Corte declara a ilegitimidade constitucional de uma disposição legislativa dada, na parte em que não expressa certo conteúdo [que} deveria estar expresso e contido no texto legislativo para que (…) fosse conforme a Constituição”.

Nesse passo invoca a autoridade de Carlos Blanco de Morais e de Augusto Cerri, com exemplos da casuística italiana. Esse capítulo vale o livro, especialmente na parte referente à classificação das sentenças aditivas.

Aqueles que advogamos nos tribunais superiores nos encantamos com o capítulo relativo aos direitos fundamentais e as ações constitucionais. O autor explora a Reclamação, um tema difícil, que conta com uma história (interna) própria cujo ponto central é o alargamento que está contido no art. 988 do CPC de 2015. Abboud explica, com base em Nelson Nery Júnior, que o CPC retomou nesse ponto disposições da Lei n. 8.038 de 28 de maio de 1990, com plena vigência, que institui normas procedimentais para processos que correm no STF e no STJ.

O tema do controle de constitucionalidade é explorado também no contexto da arbitragem. Cuida do controle em face da Administração Pública; nesse tópico há alusões sobre o que o autor denomina de “desaplicação da lei” o que se desdobra na explosão da litigância que há contra o Estado. Essa patologia é incontrolável, e chega a ser esquizofrênica, quando o Estado litiga contra si mesmo. Trata-se da litigância intragovernamental. Eu já vi execução da Fazenda Nacional em face do IBAMA, além de conflitos opondo MDA, INCRA, MME, ICMBio, ANEEL, EMGEPRON, FUNASA, INSS e tutti quanti.

Abboud conclui o livro com um excerto sobre ativismo judicial e juristocracia. A leitura é facilitada com resumos sintéticos que fecham os capítulos. O livro tem mais de 1.700 páginas, exige leitura calma, do estilo dos herbívoros, hostil à leitura apressada, do estilo dos carnívoros.

É, na essência, uma obra de doutrina, expressão que tomamos emprestado da Teologia Sistemática, enquanto apresentação coerente e codificada de um campo do saber. É um livro que ensina e que instrui. Nesse ponto também, é diferente e inusitado, comprovando que ainda há qualidade e bom gosto no mercado editorial de Direito.

Compartilhar
Vídeos relacionados
Continue lendo sobre
Outros artigos sobre este tema
acervo com mais de 1.800 artigos

Este artigo foi originalmente publicado em conjur.com.br e está aqui hospedado para leitura, citação e uso como anexo a coleções de vídeos do JurisTube. Os direitos autorais permanecem com o(a) autor(a) e com o veículo original.