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Artigo doutrinário

A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery

A Elegância do Ouriço, da escritora Muriel Barbery, é um livro de enredo simples, mas que explora assuntos profundos e complicados

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Citação acadêmica

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery. conjur_import, 13 set. 2026. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-set-13/a-elegancia-do-ourico-de-muriel-barbery. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/a-elegancia-do-ourico-de-muriel-barbery. Acesso em: 23 set. 2026.
APA
Godoy, A. S. D. M. (2026, September 13). A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2026-set-13/a-elegancia-do-ourico-de-muriel-barbery
Chicago
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. 2026. “A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery.” *conjur_import*, September 13. https://conjur.com.br/2026-set-13/a-elegancia-do-ourico-de-muriel-barbery
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A Elegância do Ouriço, da escritora Muriel Barbery, é um livro de enredo simples, mas que explora assuntos profundos e complicados. Muriel trata de diferenças sociais, de luta de classes em um micro espaço bem delimitado (um prédio de apartamentos luxuoso, com oito unidades), de diferenças culturais, da oposição entre elegância e vulgaridade, de questões existenciais e da amizade. O livro é de 2006. Ficou 20 anos na minha estante, à espera da leitura. Toda leitura tem sua hora certa.

A autora nasceu em Casablanca, no Marrocos, em 1969. Estudou filosofia, lecionou na França e viveu um tempo no Japão. Em A Elegância do Ouriço as referências à cultura japonesa são frequentes. O personagem mais encantador do livro é um culto e elegante japonês, que desponta em algum momento como o novo morador do edifício.

A personagem central é a “concierge”. Trata-se de um misto entre administradora e porteira, responsável pelo cuidado do prédio. É uma figura recorrente no modelo de vida parisiense. Simulava ser ignorante. Rude, ranzinza, sempre de cara fechada, assumia o estereótipo das concierges parisienses: rabugenta. Tinha 54 anos, era viúva, vinha de uma família humilde do interior da França. Trabalhava há 27 anos no prédio. Conhecia todos os moradores. A estória se passa em Paris, e sempre no contexto da intimidade do prédio.

A outra personagem também central é uma menina de 12 anos, superdotada, que estudava japonês e lia mangás, e que vivia às turras com a irmã, estudante universitária, e com os pais, que eram de esquerda. Abatida com a falta de sentido de sua vida, planejava o suicídio. Desafiava os professores e enfrentava a irmã.

A autora vale-se dessas duas personagens para criticar o esnobismo e a sensaboria de certa intelectualidade francesa. Denuncia alunos de famílias ricas que frequentam o ensino público, de algum modo gastando o dinheiro do contribuinte pesquisando e dissertando sobre assuntos de pouquíssima utilidade.

A cultura da concierge é elevadíssima. Conhecia literatura, filosofia, música, cinema, história, psicologia. Referia-se a autores e artistas com uma profundidade assustadora. Citava autores russos, batizava seus gatos com nomes que tirava dos romances que lia. Discutia Morte em Veneza (Thomas Mann), ouvia Mahler, lia haicais. O leitor, penso, duvida dessa cripto intelectualidade. Percebe-se algum exagero.

É nessa clivagem — a concierge é exteriormente rude e ignorante, e internamente erudita e refinada — que explica o título do livro. A personagem lembra os ouriços, que são por fora duros e feios; embora macios e delicados por dentro. Uma cultura raríssima incorporada na simples porteira de um prédio. Não vai aqui preconceito algum de minha parte. Relato o que li no livro.

Com a morte e venda de um dos apartamentos o misterioso japonês percebe o nível intelectual da concierge logo na primeira rápida conversa. Ficam amigos. Rompem as convenções sociais que regiam a vida no prédio. A autora não abre espaço para pieguices e romantismos. A porteira e a menina rebelde constroem também uma forte amizade; e é justamente a ponte da redenção que dá força ao argumento desse belíssimo livro.

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