Impressionado pelas recentes imagens de emigrantes africanos se aglomerando e sofrendo em Ceuta, firmes no sonho de pisarem na Europa, chamou-me a atenção A Estranha Morte da Europa, O livro trata de imigração, de identidade, do Islã. É muito atual. O autor é o comentarista político Douglas Murray. É inglês. É jovem (nasceu em 1979). Ligado ao pensamento conservador inglês (é escritor associado da eevista The Spector), nesse livro discorre sobre a crise migratória europeia. Não faz nenhuma concessão a uma compreensão mais humana desse gravíssimo problema. Porém, para entendermos o mundo precisamos ler muito autores que divergimos, como ponto de partida. Alessandra Cardoso que o diga [1]. Seja.
A leitura revela um pensamento no mais das vezes xenófobo, intolerante, preconceituoso, reducionista. O leitor é convocado a impugnar ou a aderir às ideias do autor. Não há meio termo. O autor argumenta que os líderes europeus (especialmente Angela Merkel e Tony Blair) foram lenientes e coniventes para com as ondas migratórias de massa.
Essa movimentação inicia-se ao fim da segunda grande guerra. A escassez de mão-de-obra na Europa exigia trabalhadores estrangeiros; a Alemanha recebeu muitos turcos, a França recebeu muitos portugueses. Há mais de 20 anos me marcou muito a leitura de Cabeça de Turco, de Günther Walraff. É a versão do outro lado da história. Walraff (alemão) simulou que era turco, ao longo da pesquisa do livro. Revela os porões de uma vida dificílima. Murrray e Walraff veem o problema sob prismas opostos. Há hoje cerca de 4 milhões de turcos vivendo na Alemanha.
Para Murray, a Europa está muito transformada
Há lugares nos quais as comidas, as cores, a língua, as roupas, tudo lembra o Paquistão, ou o Afeganistão, ou a Líbia ou o Marrocos. Nas cidades frias do Norte veem-se pessoas vestidas para as tempestades no Saara.
Argumenta que a Europa vive um cansaço existencial e civilizacional. A religião tradicional cedeu espaço para a dogmática dos direitos humanos e para o cosmopolitismo sem limites. Murray impugnou todos os argumentos que justificam a receptividade para os imigrantes: necessidade de mão-de-obra, processo de envelhecimento da população europeia, baixíssimas taxas de natalidade entre os europeus.
Murray sustenta que o Serviço de Saúde Britânico gasta quantias exorbitantes com serviços de tradução. A celebração (para o autor, interminável) da diversidade cultural suscita uma ironia: europeus não podem celebrar a própria cultura, que é justamente a cultura que possibilita o multiculturalismo.
O autor critica o que reputa como uma intolerância do imigrante, questionando se uma sociedade liberal tem o dever de tolerar o intolerante. Pretende explicar o crescimento da extrema-direita. É o caso do “Jobbik” na Hungria, do “Ataka” da Bulgária, da “Aurora Dourada” na Grécia, bem como o partido da Família Le Pen, e ainda a “Alternativa para a Alemanha”.
Murray ocupa-se com a teoria do “Império contra-ataca”, isto é, o postulado de que os colonizados devem se voltar contra o colonizador. Murray questiona a necessidade de um pedido de desculpas. Para o autor, quem efetivamente deve pedir desculpas não teria (pessoalmente) feito nada de errado; e o destinatário do pedido (segundo Murray) já morreu há muito tempo. Discordo. Não é tão simples assim.
O livro de Murray é provocativo. Dá insumo para um debate muito importante, bem no núcleo da chamada guerra cultural, um dos pontos mais tensos do embate político contemporâneo.
[1] A resenha de hoje é dedicada à economista Alessandra Cardoso. Com posições firmes, Alessandra parece ter o espírito da águia, o pulso da atleta e a convicção da mártir. Aniversaria hoje, e tem sido uma dileta interlocutora, com quem sempre aprendo.


