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Artigo doutrinário

'Caminho das Pedras', de Rachel de Queiroz

Rachel de Queiroz agrupa, em uma narrativa encantadora, os gravíssimos temas da fome, do abandono, da luta por dias melhores, da exploração

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Citação acadêmica

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. 'Caminho das Pedras', de Rachel de Queiroz. conjur_import, 12 abr. 2026. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-abr-12/caminho-das-pedras-de-rachel-de-queiroz-2. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/caminho-das-pedras-de-rachel-de-queiroz. Acesso em: 30 set. 2026.
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Godoy, A. S. D. M. (2026, April 12). 'Caminho das Pedras', de Rachel de Queiroz. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2026-abr-12/caminho-das-pedras-de-rachel-de-queiroz-2
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Rachel de Queiroz (1910-2003) escreveu Caminho das Pedras no meio da década de 1930. É um relato pesadíssimo sobre um grupo de comunistas, pessoas muito simples, que tentavam se organizar na periferia de Fortaleza, no estado natal da autora. Rachel agrupou em uma narrativa encantadora os gravíssimos temas da fome, do abandono, da luta por dias melhores, da exploração. É um livro de militância.

A autora tinha 26 anos na época em que escreveu Caminho das Pedras. O realismo dos diálogos e das imagens revela uma maturidade que parece ter sido sua marca maior, desde que publicara O Quinze, com menos de 20 anos. Um livro de menina, escrito por uma mulher, e endereçado para gente grande.

Em Caminho das Pedras está nítido o conflito entre o intelectual e o proletário. Conta-se que o epiteto “intelectual” surgira à época do caso Dreyfuss. Em 1898 o jornal “L’Aurore” publicava um protesto contra a injusta prisão do capitão do exército francês Alfred Dreyfuss, judeu de origem, acusado de vender segredos militares para os alemães. George Clemenceau referiu-se aos signatários do protesto, chamando-os de “intelectuais”. O nome pegou, e segue até nossos dias. O tema dos intelectuais agita muita discussão. Faço referência a Julien Brenda, Norberto Bobbio, Edward Said, Thomas Sowell, Antonio Gramsci, Richard Posner, Mario Varas Llosa e tantos outros.

Rachel de Queiroz opõe nesse livro proletários a intelectuais, aqueles últimos desconfiando desses primeiros. Os intelectuais, por outro lado, tentando convencer os trabalhadores de que eram aliados e que tinham uma causa comum. É a velha ladainha. O intelectual diz ser o representante do proletário, insiste que pensa pelo proletário e que luta pelo proletário. Muita gente acreditou nisso, principalmente entre os intelectuais.

A autora também expõe um outro problema, referente à liberdade pessoal do revolucionário junto às organizações que frequenta. Essa liberdade pessoal alcança também a liberdade intelectual, situação que a autora viveu mais tarde, e que a afastou definitivamente da esquerda. O stalinismo então reinante pretendia controlar seus enredos, personagens e problemas estéticos. De personalidade muito forte, irredutível, Rachel de Queiroz, ao que consta, por esse problema, entre outros, afastou-se da esquerda. Muito jovem, a escritora brasileira se adiantou à discussão que decorreu da revelação dos crimes de Stalin, que fez cair o chão da esquerda, especialmente na França. A biografia de Sartre ilustra esse dilema.

Caminho das Pedras reflete também a questão da condição feminina. Embora a autora tenha reiteradamente se declarado não feminista, suas personagens são mulheres fortes, inabaláveis, independentes. Em Caminho das Pedras há Noemi, um arquétipo de mulher sofrida que não se deixa abater. Ao longo desse belíssimo romance Noemi vive um triângulo amoroso que a coloca na mira de toda a comunidade, que não aceitava o adultério. Noemi vivia com toda intensidade as chamadas virtudes do catecismo: paciência, resignação e coragem.

As más línguas do partido insistiam que havia mulheres que confundiam os porquês da questão social. Essa confusão marcava a trajetória das mulheres que queriam se engajar; mas a confusão não era delas. Era dos homens que temiam suas respectivas presenças.

Rachel de Queiroz descreve com minudência a cena suburbana de uma capital nordestina, com seus tipos comuns, bêbedos caídos, maridos traidores e traídos, crianças abandonadas.

O fecho do livro é comovente. Passados quase 90 anos de sua publicação Caminho das Pedras permanece um livro presente, atual, comovente e encantador.

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