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Artigo doutrinário

Livro explica razões para ascensão do novo conservadorismo

Novo Conservadorismo Brasileiro, de Marina Basso Lacerda, é livro em forma de diagnóstico preciso das tensões políticas e ideológicas

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Citação acadêmica

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. Livro explica razões para ascensão do novo conservadorismo. conjur_import, 19 abr. 2026. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-abr-19/o-novo-conservadorismo-brasileiro-de-marina-basso-lacerda-2. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/livro-explica-razoes-para-ascensao-do-novo-conservadorismo. Acesso em: 30 set. 2026.
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O Novo Conservadorismo Brasileiro, da cientista política Marina Basso Lacerda, é um livro em forma de um diagnóstico preciso das tensões políticas e ideológicas que marcam e que dividem o nosso país. Escrito sob uma perspectiva privilegiada — a autora é analista legislativa na Câmara dos Deputados — a obra aproxima História, Ciência Política, Economia, Direito Comparado e Sociologia da Religião.

Marina explica as possíveis razões para a ascensão de um novo conservadorismo brasileiro. Enfatiza o protagonismo da direita cristã, inclusive apresentando e avaliando o desempenho da “bancada evangélica” em torno de uma agenda de costumes fortemente conservadora. Explora a nova direita cristã norte-americana, indicando “vasos comunicantes” que aproximam religiosos e conservadores, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil.

A disputa no tema ideologia de gênero é também apontada como causa que fomenta o conservadorismo, que nas urnas foi recentemente comprovado com o crescimento exponencial do bolsonarismo. Marina também comenta a importância do escritor Olavo de Carvalho nesse contexto; lembrando que Olavo seria o responsável pela indicação de dois ministros no governo Bolsonaro: Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Ricardo Vélez Rodrigues (Educação). Necessária a leitura do diplomata Paulo Roberto de Almeida (Apogeu e Demolição da Política Externa Brasileira), a propósito do protagonismo de Ernesto no Itamaraty. Leitura imperdível.

Autora esquadrinha o neoconservadorismo

Explorando um quadro de causas justificativas do crescimento do conservadorismo a autora imputa como causa mediata e imediata o antipetismo. O processo de “impeachment” da ex-presidente Dilma Rousseff ilustra esse postulado. A ajuda ao mais pobre, sem qualquer confronto com a ordem, âmago conceitual do lulopetismo, é um dogma rejeitado pela onda neoconservadora.

Marina disseca esse movimento, sugerindo seus pontos centrais: familismo (defesa da família patriarcal), militarismo interno (punitivismo), militarismo externo (combate ao comunismo), a par de posicionamentos a favor de Israel, bem como a adesão irrestrita aos postulados econômicos do neoliberalismo.

O neoconservador é liberal na economia e conservador nos costumes. A autora traça paralelos com a política norte-americana. Nos Estados Unidos, os democratas são liberais progressistas e os republicanos são liberais reacionários. Há uma antinomia em relação a questões morais (o aborto, por exemplo) que convive com uma absoluta convergência em relação a temas econômicos (críticas ao tamanho do Estado, também por exemplo).

A autora explorou os vários sentidos do selo “neoconservadorismo”, com referência a vários pensadores: Leo Strauss, Irving Kristol, Daniel Bell, Allan Bloom, entre tantos outros. Há uma convergência conceitual que une traços comuns do liberalismo econômico, do tradicionalismo moral e do anticomunismo. Edmund Burke (autor que é mencionado em toda discussão sobre o pensamento conservador) também é lembrado.

Marina estuda a trajetória da direita cristã, especialmente no contexto norte-americano. Pontua o conflito conservador em face do avanço feminista e questões afetas a homossexuais. A autora toca em questões de aborto (o tema do Pró-Vida) e de famílias alternativas (o tema do Pró-Família). Retoma temas weberianos, a propósito de uma cosmovisão que enaltece o capitalismo como “um sistema ético que corresponde à dádiva de Deus, que é o livre-arbítrio”.

A autora explora a aliança entre o neoliberalismo e o neoconservadorismo, o que poderia sugerir algum paradoxo, que o livro desmistifica. Marina esquadrinha o neoconservadorismo em todos os seus sentidos: privatismo, antilibertarismo, neoliberalismo, militarismo, sionismo, reforço aos papeis tradicionais de gênero.

O que cativa é que a autora explora todas essas questões no contexto de nossa recente história política. Nesse sentido, ao lado de O Ovo da Serpente, de Consuelo Dieguez, O Novo Conservadorismo Brasileiro é um dos livros mais importantes para uma tentativa de compreensão de nossos tempos. Tempos sombrios.

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