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Artigo doutrinário

Machado de Assis e a Teoria do Medalhão

Teoria do Medalhão é uma referência poderosa para pensarmos governança, administração pública, mérito, transparência e responsabilidade

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Citação acadêmica

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. Machado de Assis e a Teoria do Medalhão. conjur_import, 22 mar. 2026. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-mar-22/machado-de-assis-e-a-teoria-do-medalhao-prestigio-aparencia-e-a-pedagogia-da-irrelevancia-2. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/machado-de-assis-e-a-teoria-do-medalhao. Acesso em: 30 set. 2026.
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Godoy, A. S. D. M. (2026, March 22). Machado de Assis e a Teoria do Medalhão. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2026-mar-22/machado-de-assis-e-a-teoria-do-medalhao-prestigio-aparencia-e-a-pedagogia-da-irrelevancia-2
Chicago
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Retomo esta semana um clássico do selo Direito e Literatura: Teoria do Medalhão, conto de Machado de Assis, originariamente publicado na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 18 de dezembro de 1881. O conto foi no ano seguinte publicado em Páginas Avulsas. É facilmente encontrável em recolhas de Machado de Assis. É uma leitura deliciosa e provocante.

É um conto muito eloquente para nossos tempos. Parece que foi escrito para explicar, com ironia e precisão, traços persistentes da vida pública brasileira: o apego à aparência, a obsessão por títulos, a confusão deliberada entre prestígio e mérito, entre público e privado, e a naturalização de redes de favor que substituem critérios objetivos de competência. Uma mistura de apadrinhamento com patrimonialismo,

O enredo é simples e engenhoso. Um pai aconselha o filho, recém-chegado à maioridade, a propósito de como “vencer na vida”. Não lhe recomenda estudo sério, trabalho árduo ou originalidade intelectual. Ao contrário: ensina-lhe o caminho seguro para tornar-se um “medalhão” — alguém socialmente reconhecido, respeitado, citado, convidado, homenageado. O segredo não está em pensar demais, nem em produzir algo relevante, mas em não incomodar, não divergir, não se destacar por excesso de inteligência. O ideal é a mediania bem-vestida. É o postulado da áurea de mediocridade.

A medalha, no conto, é menos um objeto do que um modo de existir. Simboliza o reconhecimento social desvinculado de substância. O medalhão é aquele que ocupa espaços, acumula distinções, repete fórmulas aceitas e evita qualquer pensamento que possa gerar atrito. Não se trata de ignorância involuntária, mas de opção estratégica pela irrelevância segura.

Machado desmonta, com humor seco, a lógica da meritocracia aparente. O mérito, no universo do medalhão, não é produzir, é parecer adequado; não é contribuir, é circular; não é decidir, é ser visto. O pai aconselha o filho a falar de tudo sem profundidade, a adotar opiniões consensuais, a usar frases feitas. O pensamento próprio é risco; a neutralidade ornamental é vantagem.

É difícil não reconhecer, nesse retrato ficcional, práticas recorrentes da vida institucional brasileira. O conto ajuda a entender por que, tantas vezes, cargos, honrarias, títulos e comissões ganham centralidade maior do que a efetiva capacidade técnica ou a responsabilidade pública. O medalhão não é necessariamente incompetente; é, sobretudo, convenientemente inofensivo.

Machado de Assis (que ao que consta era funcionário público exemplar) discorre o funcionamento simbólico do poder: como se constroem reputações, como se legitima autoridade e como se distribuem espaços de decisão. O conto sugere que o prestígio não decorre do mérito, mas da adequação a expectativas sociais — muitas vezes mediadas por relações pessoais, conveniências e silenciosa troca de favores. Tudo tão atual.

Embora Machado não use termos como nepotismo ou clientelismo, a lógica do medalhão dialoga diretamente com essas disfunções. O medalhão prospera em ambientes nos quais o reconhecimento precede a entrega, o título vale mais do que o trabalho, e a circulação no lugar e hora certos substitui critérios objetivos. Não é preciso ser excelente; basta ser aceitável — e bem relacionado.

Há também uma reflexão sobre o uso da linguagem como instrumento de poder. O medalhão fala muito, mas diz pouco. Seu discurso é feito de lugares-comuns, frases neutras, fórmulas respeitáveis. É uma linguagem que ocupa espaço sem produzir sentido. A observação é particularmente incômoda: quantas vezes a retórica serve mais para blindar decisões do que para justificá-las racionalmente?

Machado parece sugerir que o problema não é a falta de talento, mas o excesso de ousadia. A prudência estratégica parece ser o conhecimento prudente para uma vida decente (aqui parodiando um autor português). O medalhão evita posições precisas, não por sabedoria, mas por cálculo. O risco é que, quando essa lógica domina instituições públicas, o resultado não é apenas mediocridade administrativa, é empobrecimento deliberado do debate, paralisia decisória, técnica do impasse e desresponsabilização.

O importante é saber quando falar, quando calar, a quem cumprimentar, de quem discordar e, nesse caso, sempre em voz baixa. O medalhão não confronta o sistema; adapta-se a ele — e, ao fazê-lo, o perpetua.

Ao final, Teoria do Medalhão não oferece redenção. O pai não é questionado, o filho não se rebela, o sistema segue funcionando. Machado não escreve para corrigir; escreve para expor. E o que expõe é uma pedagogia social da irrelevância: a formação de sujeitos públicos treinados para ocupar espaços sem transformá-los.

Teoria do Medalhão é uma referência poderosa para pensarmos governança, administração pública, mérito, transparência e responsabilidade. Levanta uma pergunta simples e desconfortável: quantas medalhas são necessárias para acobertar a absoluta falta de substância?

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