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Artigo doutrinário

'Vento em setembro', de Tony Bellotto

“Vento em setembro”, de Tony Bellotto, é daqueles livros que o leitor não larga até vencer a última página. Há mistérios do começo ao fim

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Citação acadêmica

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. 'Vento em setembro', de Tony Bellotto. conjur_import, 1 fev. 2026. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-fev-01/vento-em-setembro-de-tony-bellotto-2. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/vento-em-setembro-de-tony-bellotto. Acesso em: 30 set. 2026.
APA
Godoy, A. S. D. M. (2026, February 1). 'Vento em setembro', de Tony Bellotto. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2026-fev-01/vento-em-setembro-de-tony-bellotto-2
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“Vento em setembro”, de Tony Bellotto, é daqueles livros que o leitor não larga até vencer a última página. Há mistérios do começo ao fim. Um desafio. Relatando minha experiência na leitura desse livro: senti-me um detetive. E como nos romances policiais a resolução do problema apequena o leitor, que pergunta: — mas como não percebi?

Há, no entanto, algumas diferenças de estrutura entre “Vento em setembro” e os romances policiais. É que nestes últimos há um morto, um assassino (ou vários assassinos, como lemos em um clássico de Agatha Christie) e invariavelmente vários suspeitos. Essa técnica foi fixada por Edgard Alan Poe. Em “Vento em setembro” há mortes; porém nenhuma delas sugere algum desafio de interpretação. Pelo contrário, o mistério detetivesco do livro está na vida, e não na morte.

A estória toda começa em uma festa no interior de São Paulo (mais precisamente em Assis). Um magnata organizou o evento para marcar a passagem do filho mais novo para a vida adulta. Como já ocorreu em muitos desses rituais o menino frequentaria uma prostituta. Uma orgia. Muitos convidados. Lindas mulheres (vinda dos prostíbulos mais afamados), garçons, música, exagero nas comidas e muito exagero nas bebidas. A classe dominante local encontrava-se na festa, inclusive o padre. No entanto, o aniversariante desaparece justamente quando deveria estar dividindo a cama com a mulher que o pai cuidadosamente escolhera. É nesse momento que a estória engata. E que estória!

Tony Bellotto é um narrador talentoso

Completo. Descreve o interior de São Paulo de meados da década de 1970 com absoluta fidelidade. Conheço as cidades que menciona (lecionei em Assis, creio que meu segundo emprego, o primeiro foi de bibliotecário, em Londrina). Sou da geração do autor, que também sempre admirei como músico (Tony Bellotto é guitarrista dos Titãs).

As referências são absolutamente fidedignas. Bauru, Botucatu (onde vive Cristina Andreatti, exímia pianista), as estradas de ferro (eu ia de Bauru a Araçatuba de trem). Há personagens do livro que vão para Londrina, no Paraná, onde vivi muitos anos. Um deles irá lecionar na Universidade Estadual de Londrina-UEL, onde estudei e lecionei.

A trama também se desdobra em vários outros lugares, com descrições realistas. A esquina da Augusta com a Paulista, em São Paulo. Um show de Rita Lee que acabou em batida policial. Belo Horizonte e uma intrigante delegada de polícia. Ouro Preto, as igrejas barrocas e as esculturas de Antonio Francisco Lisboa (o Aleijadinho, não sei se seria adequado o epíteto hoje em dia).

Os personagens são reais, convincentes, talvez extraídos de um imenso e imaginário catálogo de gente com quem o autor teria interagido ou observado. O leitor não duvida da veracidade dos caracteres. É um livro que tem como pano de fundo uma devassidão recorrente, e que é marca da época. É uma das maneiras como se reagia à repressão política, que estava em todos os momentos de nossas vidas.

“Vento em setembro” é um romance que descreve nossas aldeias e é justamente por isso que é universal. Fiquei absolutamente tocado por esse livro que descreve com exatidão situações que vivi ou que ouvi falar, levando-me para vários locais que estão na minha memória. Esse Brasil não existe mais, para o bem e para o mal.

Há em “Vento em setembro” uma certa sabedoria na compreensão do envelhecimento e na aceitação de nossas limitações. É também um livro profético, no sentido de que profecias tratam de eventos futuros (tidos como certos) e de algum modo já ocorridos, justamente porque as profecias estão contidas no passado em que foram anunciadas. Profecias não se contam. Profecias se anunciam.

O autor transcendeu em “Vento em setembro” toda a fama que o precede. Merecidamente, levou o Prêmio Jabuti de melhor romance de 2025. As referências à música pop, às artes, à literatura são instrutivas. O leitor reconhece um autor com memória prodigiosa, com profusão de dados que não deixam lacunas.

Li “Vento em setembro” no aeroporto de Campinas (houve um expressivo atraso) e ao longo de um voo para Brasília. Os livros são os melhores companheiros de viagem.

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