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Artigo doutrinário

A distopia de ‘Não verás país nenhum’, de Ignácio Loyola Brandão

Na literatura, mais do que na vida, tudo é possível. Mas na vida, às vezes tanto quanto na literatura, o impossível ocorre. Imaginem que a Amazônia virou um imenso deserto. Imaginem que esse deserto foi anunciado como a nona maravilha do mundo. Imaginem que essa tragédia foi come

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Citação acadêmica

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. A distopia de ‘Não verás país nenhum’, de Ignácio Loyola Brandão. conjur_import, 4 fev. 2024. Disponível em: https://conjur.com.br/2024-fev-04/a-distopia-de-nao-veras-pais-nenhum-de-ignacio-loyola-brandao. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/a-distopia-de-nao-veras-pais-nenhum-de-ignacio-loyola-brandao. Acesso em: 30 set. 2026.
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Godoy, A. S. D. M. (2024, February 4). A distopia de ‘Não verás país nenhum’, de Ignácio Loyola Brandão. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2024-fev-04/a-distopia-de-nao-veras-pais-nenhum-de-ignacio-loyola-brandao
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Na literatura, mais do que na vida, tudo é possível. Mas na vida, às vezes tanto quanto na literatura, o impossível ocorre. Imaginem que a Amazônia virou um imenso deserto. Imaginem que esse deserto foi anunciado como a nona maravilha do mundo. Imaginem que essa tragédia foi comemorada. Leiam Não verás país nenhum, um livraço de Ignácio de Loyola Brandão, publicado em 1981, e essa imaginação pavorosa se tornará uma descrição real, assustadora.

O livro é originado de um conto, no qual Souza, o personagem central, descobriu que tinha um furo na mão. Sua vida então mudou. Não verás país nenhum é uma obra imperdível da literatura brasileira contemporânea. É um livro absolutamente atual. Comprova que nossa literatura também conta com uma obra de distopia muito bem elaborada, igual ou superior a 1984, de Orwell, a Admirável Mundo Novo, de Huxley, ou mesmo a alguns filmes, como Blade Runner, de Ridley Scott. Na distopia de Loyola o vilão é o próprio ser humano. O livro é de tirar o fôlego. Pode parecer, no entanto, e muitas vezes, que se lê um jornal em tempo próximo, ou amargamente presente. Confiram.

Ambientado em uma São Paulo futurista, o romance aterroriza. Souza é um professor compulsoriamente aposentado, que vive com Adelaide. O aquecimento global fez com que a temperatura alta fosse insuportável. Não havia mais água. Bebia-se urina reciclada. Não havia mais frutas ou verduras ou carnes ou peixes. Comiam-se produtos industrializados, que imitavam sabores que um dia se conheceu. Devorava-se uma saladinha de brotos artificiais com salsichas sintéticas. Havia feijão, fabricado em laboratório, que virava sopa, borracha, cola, gelatina, que era pegajosa na boca. Os odores da natureza e da memória desapareceram. Comprava-se, em lojas superlotadas, e mediante o uso de fichas, o cheiro de flores, da chuva, da terra molhada.

A sociedade era controlada pelos Civiltares, policiais temidos pela excelente pontaria e rapidez. A cidade era dividida em zonas impenetráveis. Os Bairros Privilegiados – – como não poderia deixar de ser – – abiscoitavam tudo o que podiam. Os cientistas viraram uma categoria mínima e marginalizada. Para que ciência? perguntavam os líderes do Esquema, grupo que exercia o poder. As opiniões e jornais não circulavam, proibidos que estavam pelos Interditos Postais.

A quantidade de automóveis chegou a tal ponto que um congestionamento intenso, interminável e estático tomou conta das ruas. Por isso, os veículos foram abandonados, todos, em filas intermináveis. Tornaram-se cemitérios, devassados por todos, que dos imprestáveis automóveis furtavam tudo, pneus, bancos, espelhos. Não havia mais buzinas. Os Departamentos Circulantes regulavam o trânsito de pessoas, fixando Áreas de Circulação, com entradas rigidamente controladas, denominadas de Bocas de Distrito. O caos urbano era absoluto.

Havia ratos por todas as partes. Eram combatidos com um Sônico Antirratos, que reproduzia, em som de alta frequência, o guincho que um rato produz após a cópula. Lê-se no romance que a rata entende o recado, porque o rato quer ficar só, justamente porque satisfeito com o impulso sexual, precisa se recuperar. É esse o barulho (talvez inaudível para nós humanos) que espantava os roedores. Não se precisava saber ler. Tudo era explicitado por sinais. Frases, períodos, ideias, conceitos, objetos, conexões, tornaram-se símbolos. Se Não verás país nenhum fosse escrito hoje (porque toda ficção é na verdade uma leitura do próprio tempo), talvez esses símbolos reproduziriam figurinhas de telefones inteligentes, que identificam sorrisos, beijos, piscadas, apreensões e corações. Comunicam. Porém encolhem as capacidades de comunicação.

Intrigante a passagem do livro quando se anunciou a derrubada da última árvore da Amazônia. O governo (Esquema) estava orgulhoso com a grande conquista. Era um feito digno dos governos que pensam no futuro, assinalava o romancista. O governo dava ao país uma das grandes maravilhas do mundo. Não apenas a África podia se orgulhar de possuir o seu deserto do Saara. Também podíamos contar com um deserto maravilhoso, “centena de vezes maior do que o Saara, mais belo (…) magnificente”. Que maravilha, as dunas, o leito seco dos rios. Possuíamos o maior e mais belo deserto do mundo. Os ricos iriam se divertir, passeando pelo deserto da Amazônia, em grandes caravanas, “fantasiados de árabes”. Segundo o romancista, helicópteros desceriam nas areias mornas do deserto da Amazônia, trazendo “a elite misturada a dançarinas de ventre”.

Literal e literariamente, transformamo-nos em uma terra das mil e uma noites. Não verás país nenhum é um livro imperdível, que revela a agudeza, a premonição e a sensatez de um de nossos maiores escritores. Estamos avisados.

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