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Artigo doutrinário

Emanuel Carrère faz vitimologia inusitada em 'O Adversário'

O que liga as narrativas é a vitimologia inusitada apresentada por Carrère. Para ele, vítimas e assassinos são vítimas dos fatos da vida

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. Emanuel Carrère faz vitimologia inusitada em 'O Adversário'. conjur_import, 19 jul. 2026. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-jul-19/o-adversario-de-emanuel-carrere. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/emanuel-carrere-faz-vitimologia-inusitada-em-o-adversario. Acesso em: 23 set. 2026.
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Emanuel Carrère é um escritor francês que tem se notabilizado por livros que tratam de crimes e outras tragédias da vida. Em Outras Vidas que Não a Minha, narra um tsunami ocorrido em Sri Lanka. Carrère presenciou os fatos. Estava com a família hospedado em um resort.

A tragédia ocorreu em 2004. Em V 13 (na minha opinião seu livro mais arrebatador, resenhado nesta coluna em 2024) Carrère acompanha o julgamento de extremistas do Estado Islâmico responsáveis pela morte de 130 pessoas. São os dolorosos fatos ocorridos em Paris, em 13 de novembro de 2015. Em O Adversário, tema desta semana, o autor acompanha o julgamento de um homem que matou a esposa, dois filhos, o pai e a mãe, que ateou fogo na própria casa e que tentou o suicídio. Que defesa poderia haver?

Nos livros de Carrère o que liga as narrativas é a compaixão com a qual o autor trata vítimas e assassinos. Na impressão de Carrère, vítimas e assassinos são vítimas dos fatos da vida. Do ponto de vista criminológico, uma inusitada vitimologia, que escapa aos cânones da vitimologia tradicional. A vitimologia é um ramo da criminologia que estuda a figura da vítima, analisando sua personalidade, vulnerabilidades, o papel que desempenha na ocorrência do crime e o impacto da violência em sua vida.

Carrère amplia o escopo da definição e insere o criminoso no campo da vítima. É o que incomoda muita gente. Nas entrelinhas, o leitor percebe uma obcecada tentativa de compreensão do criminoso, que de algum modo (na percepção de Carrère) é vítima de sua trajetória e de suas escolhas. Tem-se a impressão de que o autor questiona os dogmas do livre-arbítrio, inferindo do mundo um determinismo mefistofélico que ronda todas as tragédias. Um livro que provoca.

É um importante autor de romances não ficcionais. O pai fundador dessa vertente talvez seja o norte-americano Truman Capote, autor de A Sangue Frio, devastador livro que descreve o assassinato brutal de uma família (pai, mãe e filhos) ocorrido numa pequena cidade do Kansas.

As técnicas de pesquisa de Carrère e de Capote são muito parecidas. Aproximam-se dos assassinos (Capote teria até se envolvido com uma das assassinas) e das famílias das vítimas. Entrevistam. Devastam as vidas dos criminosos e das vítimas. Envolvem-se emocionalmente. Refletem sobre suas próprias vidas a partir dos contornos da tragédia estudada. Tratam da condição humana.

Em O Adversário, o criminoso (aliás, nem se sabe se o personagem central seria o criminoso ou a tragédia) é meticulosamente estudado e esquadrinhado. Dizia-se médico, porém cursou Medicina por apenas dois anos. Afirmava que era funcionário da Organização Mundial da Saúde (OMS) em Genebra.

O criminoso era um cidadão respeitável. Daqueles que hoje o moralismo político chama de “homem de bem”. Bom pai. Bom filho. Bom marido, nem tanto. Na verdade, fingia que era bom com todos. Mas na verdade também, era mau consigo mesmo. A mentira era traço mais marcante, apurou-se depois. Era dissimulado. Armou uma rede de trapaças e de mentiras que só foi descoberta com a tragédia, ao longo do julgamento. Depoimentos, confissões e provas revelavam uma personalidade diabólica. Era “o adversário”, um dos nomes atribuídos ao diabo.

Nunca trabalhou. Fingia trabalhar. Vivia do dinheiro do pai, da mãe, de amigos, que lhe atribuíam a responsabilidade de fazer investimentos, que nunca fez. Sua situação tornou-se insuportável. Já não conseguia mais manter as ilusões que o rodeavam. A sequência de assassinatos teria sido o desate para o incontornável. Mas, nenhum crime é um crime perfeito. Não há crimes perfeitos.

Carrère se esforça para compreender a tragédia. Procura na trajetória do criminoso pistas para elucidar o inexplicável. O Adversário é um livro essencial para o selo direito e literatura, para aqueles de nós que gostamos de estudar criminologia e para quem procuramos exercer a compaixão. A grande questão que o livro coloca para o leitor consiste na fixação dos limites de nossa (in) capacidade de perdoar. Essa perturbadora história nos comprova que diante dos fatos a versão empalidece.

O Adversário, de Emanuel Carrère, Rio de Janeiro: Alfaguara, 2026. Tradução de Mariana Delfini.

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