Paris É uma Festa é um livro que Ernest Hemingway (1899-1961) talvez teria concluído não muito tempo antes de se suicidar. Descreve os anos em que viveu em Paris, ao lado da então esposa, Hadley Richardson, e de seu pequeno filho. Revela uma mulher companheira, entusiasmada com os projetos literários que Hemingway levava adiante. A companheira que todos sonhamos. O filho, Bumby, parece ser um lindo bebê, fortinho (fofinho como dizemos hoje), que não chorava, que não dava problemas. Bumby era o apelido de Jack Hemingway, que escreveu muito sobre pesca, e que faleceu em 2000.
Estamos no início dos anos de 1920. Hemingway trabalhava como jornalista (escrevia para jornais do Canadá). Esforçava-se para ser conhecido também como escritor. Escreveu vários contos e concluiu seu primeiro romance O Sol Também se Levanta. Decidiu dedicar-se totalmente à literatura. Abandonou o jornalismo. Enfrentava dificuldades financeiras. Muitas vezes pulava refeições. Sentimos pena, e sentimos muita fome.
Em Paris É uma Festa, Hemingway descreve vários lugares que o encantavam. Menciona cafés (um deles na praça Saint-Michel) onde escrevia. Carregava seus cadernos azuis e seus dois lápis, que frequentemente apontava. Parece que no livro conseguimos ver Hemingway carregando seus cadernos e seus lápis.
Descreve pessoas interessantes com quem conviveu: Gertrude Stein, Scott e Zelda Fitgerald, Ezra Pound. Há momentos em que o leitor nos vemos em Meia-noite em Paris, dirigido por Woody Allen, e que retrata a Paris desse tempo, com todos esses personagens: a própria Gertrude Stein, Hemingway, Picasso, Buñuel, Scott Fitzgerald, Dali, entre tantos outros. Tenho a impressão de que esse delicioso filme de Woody Allen se completa com o não menos delicioso livro de Hemingway.
É engraçada uma passagem na qual Hemingway descreve uma viagem que fez para o interior da França, junto com Fitzgerald, sempre alcoolizado e sempre imprevisível. O autor de O Grande Gatsby lamenta que Zelda (sua legendária esposa) se queixava das medidas íntimas do marido. Vão ao banheiro, que Hemingway chamou de “consultório”. Olhou a genitália de Fitzgerald e afirmou solenemente que não havia nada de diminuto, anormal ou errado. Hemingway fez comparações com as medidas das estátuas do Louvre, para onde foram imediatamente conferir…
Hemingway descreve nesse livro a famosa livraria Shakespeare and Company, que ainda funciona. Duro é conseguir entrar. Essas livrarias icônicas, a exemplo do Lello & Irmãos, no Porto, valem mais pelo que carregam de tradição do que pelos livros que ostentam nas estantes. Nessa livraria Hemingway pegava livros emprestados, pagando quantias que cabiam em seu modestíssimo orçamento.
Paris É uma Festa deixa muitas pistas da personalidade de seu autor. Hemingway presenciou acontecimentos cheios de pavor, a exemplo da Guerra Civil Espanhola, que é o grande pano de fundo de Por Quem os Sinos Dobram. As experiências vividas como correspondente de guerra também moldaram decisivamente sua literatura. A Primeira Guerra Mundial, a Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial forneceram matéria-prima para personagens marcados pela coragem, pela solidão e pela permanente consciência da fragilidade da existência. O heroísmo raramente aparece como triunfo; manifesta-se, antes, na dignidade com que homens comuns enfrentam o sofrimento, a derrota e a inevitabilidade da morte. Um exemplo para todos nós.
Essa Paris dos anos 20, contudo, foi apenas o ponto de partida de uma trajetória extraordinária. Hemingway tornou-se um dos escritores mais influentes do século 20, autor de romances que marcaram gerações e consolidaram um estilo literário inconfundível. Sua prosa econômica, feita de frases curtas e descrições precisas, ficou conhecida pela chamada “teoria do iceberg”. O escritor revela apenas uma pequena parte da estória, deixando que o essencial permaneça submerso, para ser descoberto pelo leitor. Talvez por isso seus livros conservem permanente sensação de autenticidade.
O reconhecimento internacional veio com a consagração de O Velho e o Mar, publicado em 1952, que lhe deu o Prêmio Pulitzer e contribuiu decisivamente para que recebesse o Prêmio Nobel de Literatura, dois anos depois. O velho pescador Santiago sintetiza muitos dos valores que atravessam toda a produção de Hemingway: perseverança, disciplina, resistência e a convicção de que o verdadeiro fracasso não está na derrota, mas na renúncia ao combate.
Há, entretanto, um contraste melancólico entre o jovem escritor pobre e entusiasmado que conhecemos em Paris É uma Festa e o homem atormentado dos últimos anos de vida. O sucesso literário não foi suficiente para afastar as crises pessoais que culminariam em seu suicídio.
Talvez seja justamente essa tensão entre entusiasmo e desencanto que torna suas memórias tão comoventes. Ao recordar a Paris dos anos vinte, Hemingway registrou um raro instante em que juventude, esperança e literatura pareciam caminhar lado a lado, antes que o peso da história e da própria vida transformasse definitivamente o escritor.
Hemingway concluiu Paris É uma Festa com um parágrafo que resume uma cidade, uma atitude memorialística e, especialmente, uma profunda saudade:
“Paris não tem fim, e as recordações das pessoas que lá tenham vivido são próprias, distintas uma das outras. Mais cedo ou mais tarde, não importa quem sejamos, não importa como o façamos, não importa que mudanças se tenham operado em nós ou na cidade, a ela acabamos regressando. Paris vale sempre a pena e retribuiu tudo aquilo que você lhe dê. Mas, neste livro, quis retratar a Paris de meus primeiros tempos, quanto éramos muito pobres e muito felizes.”
Encantador. Exatamente como esse livro, a atmosfera descrita, os personagens, e as inquietações desse grande escritor.
*Paris É uma Festa. Ernest Hemingway. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2013. Tradução de Ênio Silveira.
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