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Artigo doutrinário

A vocação para a advocacia: reflexões e confissões

Egon Bockmann MoreiraPublicado originalmente no JOTA (jota.info)

Mundo jurídico passou a ser virtual, mas algo segue imutável: entrega, estudo e compromisso inegociável com a ética

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Citação acadêmica

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ABNT
MOREIRA, Egon Bockmann. A vocação para a advocacia: reflexões e confissões. jota_import, 3 fev. 2025. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-vocacao-para-a-advocacia-reflexoes-e-confissoes. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/egon-bockmann-moreira/a-vocacao-para-a-advocacia-reflexoes-e-confissoes. Acesso em: 12 jul. 2026.
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Moreira, E. B. (2025, February 3). A vocação para a advocacia: reflexões e confissões. *jota_import*. https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-vocacao-para-a-advocacia-reflexoes-e-confissoes
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A vocação para a advocacia costuma evocar uma ideia romântica: aquela paixão nata, herdada ou inspirada. Comigo, foi um pouco diferente. Não tive parentes ou professores que me apontassem o caminho. Meu pai, a quem sempre associei o jeitão de advogado, era funcionário de uma empresa estatal. Assim, no meu caso, ingressar no curso de Direito foi antes uma consequência do que uma escolha – a decisão quase automática ao final do segundo grau de ensino.

Cursar a Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná, de 1982 a 1986, revelou-se uma experiência valiosa, embora sem grandes comprometimentos. Alguns ótimos professores, outros nem tanto. Só fiz estágio no quinto ano e, apenas em 1987, ao começar a advogar e a me preparar para concursos, percebi o peso e o significado da profissão.

O ponto de virada veio com o presente que a sorte me deu: trabalhei com Marçal Justen Filho, então professor titular de Direito Comercial da UFPR. Um amigo ouviu-me dizer que procurava emprego, me indicou e lá fui eu. No início, éramos só nós dois e se passaram 15 anos de aprendizado. Ele não havia sido meu professor na UFPR e tornou-se meu mentor intelectual e profissional. A exigência era altíssima, os desafios inusitados, e passei a desvendar algo de essencial sobre mim: adoro me aventurar, manusear o desconhecido e tentar aprender.

A advocacia tornou-se uma busca contínua por transformação. Compensei o desempenho mediano na graduação com a dedicação aos casos que me eram atribuídos. As ações judiciais não eram apenas trabalho; tornaram-se minha sala de aula. Cada uma delas a revelar mais e mais livros desconhecidos.

E, como o Marçal me ensinou: ética, ética e mais ética. Postura firme e estudo constante, compreendendo a profissão como essencial à Justiça e as nossas prerrogativas como a proteger o advogado de si próprio, a fim de que cumpra sua missão em favor do cliente. Comecei a me conscientizar de que a graduação instala um conhecimento mínimo, um ponto de partida, a ser constantemente renovado e ampliado. Mas muita coisa mudou desde então.

No meu começo, o mundo era analógico: não havia internet, telefones celulares ou mesmo computadores pessoais acessíveis. Nossos espaços de atuação eram menores e, as distâncias, imensas. Como diria Gil, “antes mundo era pequeno/ porque Terra era grande/ hoje mundo é muito grande/ porque Terra é pequena/ do tamanho da antena/ parabolicamará”. Ajuizar ações em qualquer cidade que não Curitiba demandava uma viagem. Hoje, é só um clique seguido de uma videoconferência. A terra é pequena e instantânea.

O tempo demorava a passar, em todos os sentidos. A distribuição de um processo levava dias e os autos entravam na pilha de conclusão. Também os textos acadêmicos e a jurisprudência se mantinham atuais por décadas a fio e a legislação era bem mais estável. Um vade-mécum persistia útil até o final do ano.

Os livros eram exclusivamente físicos. As livrarias, pontos de encontro nos sábados de manhã. Os livreiros nos visitavam com as sacolas dos lançamentos ou telefonavam, avisando que havia chegado uma edição nova deste ou daquele autor. Os sebos, lugar para garimpar com calma e encontrar aquele livro. Importados? Só na Lael, em São Paulo. Não havia, é bem verdade, tantos autores, livros e editoras como hoje – mas, ainda assim, a oferta era grande e contínua.

Ao menos no meu caso, a captação de clientes dava-se de outro modo. Eu jamais os visitei para oferecer serviços – para o bem e para o mal, nunca desenvolvi esse talento. As pessoas se conheciam presencialmente. Conversavam entre si e compartilhavam as experiências.

Eu me esforçava por escrever e publicar (com uma longa história de artigos rejeitados). Tentei construir minha reputação com décadas de paciência, estudo e respeito. É um caminho longo, sem atalhos e com muitas falhas. Mesmo porque erros e fracassos são comuns à experiência humana e nos oferecem a capacidade de aprendizado. São oportunidades para aprender e tentar melhorar.

Hoje, a advocacia é bastante diferente. Transformações, em todos os sentidos. Milhares de colegas atuam em milhões de processos. São também aos milhares os juízes, promotores e autoridades administrativas. Livros e jurisprudência surgem aos borbotões. Todos em velocidade acelerada. Mais do que a sentença final, o que vale é a antecipação, a liminar.

O mundo jurídico passou a ser eminentemente dinâmico e virtual, com todas as cidades brasileiras ao alcance do seu teclado. A especialização se tornou necessária, tantos são os detalhes combinados com o imenso volume de leis, decretos e resoluções. Ainda assim, algo permanece imutável, se não intensificado: a advocacia exige entrega, estudo e compromisso inegociável com a ética.

Ao longo de quase 40 anos, venho aprendendo que ser advogado não é apenas exercer uma profissão; é viver uma jornada de descobertas. E, talvez, essa seja a verdadeira vocação.

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