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Brasil, Racismo, Nacional-Dependência e Quase-Estagnação

Luiz Carlos Bresser PereiraBrasil, Racismo, Nacional-Dependência e Quase-Estagnação
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Citação acadêmica

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ABNT
PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Brasil, Racismo, Nacional-Dependência e Quase-Estagnação. author_upload, 2026. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/luiz-carlos-bresser-pereira/brasil-racismo-nacional-dependencia-e-quase-estagnacao. Acesso em: 27 maio 2026.
APA
Pereira, L. C. B. (2026). Brasil, Racismo, Nacional-Dependência e Quase-Estagnação. *author_upload*. https://juristube.com.br/colunistas/luiz-carlos-bresser-pereira/brasil-racismo-nacional-dependencia-e-quase-estagnacao
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Lua Nova, São Paulo, 124, e124029lcbp
, 2025
Artigos Originais
BRASIL, RACISMO, NACIONAL-DEPENDÊNCIA E
QUASE-ESTAGNAÇÃO
Luiz Carlos Bresser-Pereira
Professor Emérito da Fundação Getulio Vargas, São Paulo, SP, Brasil
E-mail: bresserpereira@gmail.com
https://orcid.org/0000-0001-8679-0557
http://dx.doi.org/10.1590/0102-124029lcbp/124
Um estado-nação ou defende seus próprios interes-
ses em um sistema de nações competitivas ou confunde
seus objetivos com os dos países mais poderosos e se torna
dependente. Em 1822 o Brasil se tornou formalmente inde-
pendente e durante o século XIX construiu seu Estado,
mas foi só a partir do início de século XX e, em particular,
da Revolução de 1930, que formou a sua nação, enquanto
o país se industrializava de forma acelerada e completava
sua revolução capitalista. Em um livro de 1928, Mário de
Andrade afirmou que apenas no final do século XIX se
formou a música brasileira. “Era fatal, diz ele, se numa ou
noutra peça folclórica dos meados do século passado já se
delineavam os caracteres da música brasileira, é só nos der-
radeiros tempos do Império que eles se tornam abundantes.
Os artistas de uma raça indecisa se tornaram indecisos que
nem ela”. Ora, se a música brasileira é recente, a nação bra-
sileira também é recente. Como observou Antonio Candido
(1970, p. 171), “A consciência do subdesenvolvimento é
posterior à Segunda Guerra Mundial e se manifestou cla-
ramente a partir dos anos 1950”. Não foi por acaso que as
primeiras interpretações do Brasil foram publicadas nos
anos 1930 e 1940 – as interpretações fundadoras de Gilberto
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Brasil, racismo, nacional-dependência e quase-estagnação
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Freyre (1933), Sérgio Buarque de Holanda (1936) e Caio
Prado Júnior (1942). E eram ainda interpretações de um
país subdesenvolvido que estava começando a sua revolução
industrial e capitalista.
Este ensaio é uma tentativa de interpretação do Brasil a
partir de alguns eixos mais importantes: o racismo, a revolu-
ção capitalista brasileira, a nação fraca e o anti-imperialismo,
a cultura alienada, a sociedade civil forte e a consolidação da
democracia e, finalmente, a quase-estagnação dos últimos
45 anos.
Racismo
No texto que abre este ensaio, é significativo que Mário
de Andrade fale imediatamente de raça, e falou de uma
‘raça indecisa’. Gilberto Freyre falou em miscigenação,
palavra que é hoje criticada porque foi associada ao mito
da democracia social, que um fator do racismo brasileiro.
O fato, porém, é que o Brasil é uma sociedade mestiça como
nenhuma outra é. Em algumas regiões, ela é mais negra,
em outras, mais branca, e em outras ainda é mais indígena,
como é o caso do sertanejo que Euclides da Cunha chamou
de ‘um forte’. Mas, antes de tudo, o brasileiro é mestiço.
Conforme observa Walnice Nogueira Galvão (1999, p. 160),
resenhando Os Sertões, Euclides da Cunha concluiu que tre-
zentos anos de miscigenação resultaram em uma “subcate-
goria étnica já constituída”. Na mesma linha de pensamento
e com mais força, Darcy Ribeiro (1995, p. 22), quase um
século depois, afirma que “mais do que uma simples etnia,
o Brasil é uma etnia nacional, é um povo-nação”. A mes-
tiçagem foi tão profunda que Jocélio T. dos Santos (2005,
p. 129) propôs que “a mestiçagem deve ser notada como
uma ideologia dominante abrangente, capaz de permear a
visão do povo, dos intelectuais, dos políticos e dos acadê-
micos, de direita e de esquerda”. Não creio que seja uma
ideologia, mas é uma realidade que nos define.
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O filósofo Achille Mbembe (2024) disse recentemente
que cada vez mais o Brasil se reconhece como negro1. Não
é assim, o Brasil cada vez mais se reconhece como mestiço,
ou como ‘pardo’—uma categoria criada pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 1991.
A população brasileira se autodefine como parda (45,3%)
e branca (43,5%). Apenas 10,2% se definem como negros.
Como afirmou José de Souza Martins (2024), diante desses
números, “a brancura deixou de ser o refúgio de uma iden-
tidade ideológica, não propriamente racial ou étnica. A ver-
dade é que o Brasil nunca foi um país de brancos. Mesmo a
elite propriamente brasileira nunca foi branca”.
O Brasil é uma sociedade mestiça que, desde o início do
século XX, passou também a contar com uma etnia japonesa
e depois coreana. É uma sociedade na qual, como ensinou
Caio Prado Jr. (1907-1990), o português vinha para cá no
quadro de uma colonização mercantil. Assim não trazia sua
mulher e se acasalava com a mulher negra e com a mulher
indígena em proporções praticamente iguais. Nesta socie-
dade, a maioria dos ‘brancos’ são realmente mestiços que
branquearam ou, como no caso de Machado de Assis, foram
branqueados. Foi bom saber que somos mestiços, porque
isto ajudou o brasileiro a abandonar o ideal do branquea-
mento e se livrar do complexo de inferioridade racial, mas
não o dispensou de lutar contra o racismo. Gilberto Freyre
subestimou o racismo aqui existente ao propor a existência
no Brasil de uma ‘democracia racial’.
Florestan Fernandes (1965; 1974, p. 75) não fala em
racismo, mas fala criticamente d’A Integração do Negro na
Sociedade de Classes (1965). Sua pesquisa foi um marco na
história das ciências sociais brasileiras. Em um livro de 1974,
ele diz que o negro saiu de uma “capitulação passiva” para
um “inconformismo inócuo”. Mesmo assim, completa: “todo
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negro revela um inconformismo, por mais oculto e tosco
que ele seja”. Esta situação, porém, mudou. Nos anos 2010
surgiu um poderoso e bem fundamentado movimento de
intelectuais acusando a sociedade brasileira de racista e exi-
gindo reformas. Em 2011, Sueli Carneiro publicou Racismo,
Sexismo e Desigualdade no Brasil, enquanto o Estado brasileiro
aprovava a “Lei de Cotas”, estabelecendo uma porcentagem
de vagas nas instituições federais de ensino superior e de
ensino técnico de nível médio. Esta lei manteve a qualidade
do ensino, enquanto o número de negros nas universida-
des federais superou 50 por cento. Em 2019, Silvio Almeida
publica Racismo Estrutural, que introduziu esse termo e
o tornou obrigatório nas análises do racismo. Para ele “o
racismo é uma forma de discriminação racial… que tem
como requisito essencial o poder”. No mesmo ano, Djamila
Ribeiro (2019) relata uma experiência pessoal. Diz ela que,
ao contrário do que aprendera na infância, “com o tempo
compreendi que a população negra havia sido escravizada e
não era [naturalmente] escrava”. Isso deve ter acontecido à
quase todos os jovens negros aos quais não é ensinado como
seus antepassados foram escravizados e sofrido do racismo.
Para Jessé Souza (2017, p. 18) “o racismo é a separa-
ção antológica entre seres humanos de primeira classe e
de segunda classe”. Ele pode ser o ‘racismo científico’ do
final do século XIX e início do século XX, ou pode ser o
‘racismo cultural’, que apela para o ‘estoque cultural’ para
distinguir os que são superiores e os que são inferiores em
cada sociedade—os que têm ‘cultura’ e os que não têm. Não
há, portanto, muita diferença entre os dois racismos. Por
isso, Souza fala em racismo racial, para ficar claro que não
está falando em racismo cultural. A partir dessa distinção,
ele faz críticas imprudentes ao pensamento paulista sobre
o racismo, pouco respeitosas da obra de Sergio Buarque de
Holanda, exclui apenas Florestan Fernandes cuja contribui-
ção para a compreensão do racismo brasileiro é inegável.
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Ele afirma que “o racismo racial é o elemento central da
sociedade brasileira moderna e o grande responsável pelo
atraso moral, social e político do Brasil”. E adiciona: “No
Brasil a gramática do racismo racial funciona como uma lin-
guagem cifrada, posto que se disfarça de outras linguagens
para se tornar ativa e comandar a sociedade por inteiro”
Ele fala do ‘racismo racial’ e, na linha do jovem Hegel e de
Axel Honneth (1992), o associa à necessidade de reconhe-
cimento social que é a mais básica e mais universal necessi-
dade de todo o ser humano que vive em sociedade. (Souza,
2021) Cida Bento (2022, p. 18) fecha esse resumo afirmando
que os brancos estão unidos por um acordo: “esse pacto da
branquitude possui um componente narcisístico, de auto-
preservação, como se ‘o diferente’ ameaçasse o ‘normal’,
o ‘universal’”.
No Brasil, a elite que se supõe branca despreza e dis-
crimina negros, indígenas e os aparentemente mestiços, os
pardos. O movimento negro cresceu muito desde a tran-
sição democrática e um número crescente de brasileiros
tem denunciado o racismo no país e exigido reformas.
A Constituição de 1988 já considera o racismo um crime.
A implementação da Lei de Cotas nas instituições de ensino
superior e técnico foi um marco na luta contra o racismo.
Um número crescente de autores tem discutido o racismo
estrutural e seu impacto na sociedade brasileira, destacando
a importância do reconhecimento social para superar essa
questão.
Revolução capitalista
O Brasil é uma nação incompleta; é uma sociedade que,
no final dos anos 1980, pareceu ter completado a sua revo-
lução capitalista, mas afinal, a partir de 1990, retrocedeu
na construção da nação. O Brasil foi originalmente uma
colônia. No século XIX, com a Independência, se transfor-
mou em uma semicolônia na qual os ‘centros de decisão’ de
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que falava Celso Furtado estavam no exterior. No Império
o Brasil construiu um Estado, não uma nação. A partir de
1930 começou afinal a se constituir como nação ao mesmo
tempo que realizava a sua revolução industrial. Formado,
portanto, o Estado-nação e realizada a revolução industrial,
o Brasil teria completado sua revolução capitalista e deveria
crescer satisfatoriamente. Isto, porém, não se confirmou.
O país entrou em regime de quase-estagnação.
O Brasil não é a sociedade patrimonialista que intérpre-
tes liberais como Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo
Faoro criticaram; eles estavam criticando algo que estava por
si só desaparecendo. Para Faoro (1957-75), haveria uma dis-
tinção clara entre a classe dominante de senhores de terra
e a classe dirigente formada pelo estamento aristocrático-
-burocrático de juristas, letrados e militares, que derivam
seu poder e seus rendimentos do próprio Estado. E o Brasil
fizera uma ‘volta redonda’, como Faoro afirma no capítulo
final de seu livro. O Brasil começara patrimonialista com
Dão Diniz e a colonização portuguesa e continuava patrimo-
nialista quando ele escrevia, em plena revolução capitalista
brasileira. O Estado é patrimonialista quando não há uma
clara separação entre o que é público e o que é privado.
Enquanto o patrimonialismo é a forma de Estado própria
das sociedades pré-capitalistas, ele é incompatível com o
capitalismo. Nas sociedades pré-capitalistas não se firmam
contratos claros porque o soberano e cada chefe ou patrão
no setor público ou no privado conservam para si o poder
arbitral, enquanto no capitalismo os contratos precisam ser
claros e o arbítrio é excluído para que o comércio e, mais
tarde, a democracia sejam possíveis.
O Brasil também não é mais uma sociedade mercanti-
lista, como afirmou Caio Prado Júnior. Ele compreendeu o
caráter mercantilista da colonização do Brasil, diferencian-
do-a da colonização de povoamento ocorrida no nordeste
dos Estados Unidos. A colonização brasileira foi baseada na
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exploração mercantil, no trabalho escravo e nos latifúndios,
o que não permitiu o desenvolvimento do mercado interno
e da classe média até a década de 19302. Darcy Ribeiro com-
partilhou dessa visão, mas não viu uma volta completa nessa
trajetória, como viram os três primeiros autores citados.
Para ele, o Brasil surgiu como resultado de um empreendi-
mento mercantil, resultando em um povo e posteriormente
uma nação.
Se o Brasil já não era mais uma sociedade patrimonia-
lista, nem uma sociedade mercantilista, como defini-la?
A maneira mais simples é afirmar que era uma sociedade
capitalista subdesenvolvida. Entre 1930 e 1980, o Brasil com-
pletou sua revolução capitalista, mas contraditoriamente,
não completou a sua revolução nacional.
A Revolução Capitalista com iniciais maiúsculas foi
a grande transição das sociedades aristocráticas que suce-
deram o feudalismo para o modo de produção capitalista.
Ocorreu originalmente na Inglaterra, França, Bélgica e
Holanda desde o início do século XVII, quando começam a
se formar os Estados-nação, até o final do século XIX, quando
Estados Unidos, Alemanha e Itália completaram sua revo-
lução industrial. Depois, outros países retardatários como
o Brasil lograram se tornar relativamente independentes e
se industrializaram realizando as suas próprias revoluções
capitalistas. A revolução capitalista brasileira começou em
1930 sob a liderança de Getúlio Vargas, que se desvencilhou
dos liberais e do seu liberalismo econômico dependente e
desenvolveu gradualmente um projeto de industrialização.
Em outras palavras, o projeto nacional-desenvolvimentista
2 Prado Jr. (1945, p. 22). “As colônias tropicais tomaram um rumo inteiramente
diverso de suas irmãs da zona temperada. Enquanto nestas se constituirão colônias
propriamente de povoamento, que reconstituíram no novo mundo um tipo de
organização e uma sociedade à semelhança de seu modelo e origem europeus,
nos trópicos, pelo contrário, surgirá uma sociedade inteiramente original […] de
acentuado caráter mercantil”.
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no qual o Estado intervinha moderadamente na economia
e adotava uma perspectiva nacionalista.
Revolução nacional anti-imperialista
Já a revolução nacional é a transição de país da con-
dição colonial ou da condição dependente para a de um
país autônomo, efetivamente soberano. Essa revolução cor-
responde ao processo de formação do Estado-nação nos
países ricos que se industrializaram originalmente. Para os
países periféricos, não basta formar o Estado-nação para se
tornar independente; é preciso que a nação faça a crítica do
imperialismo que procura impedir a industrialização do país
periférico, de um lado para manter a exportação de capitais
e a troca desigual, de outro, para evitar competição futura.
O Brasil, por exemplo, formou seu Estado-nação, mas con-
tinuou dependente. Em trabalhos anteriores eu disse que a
revolução capitalista brasileira foi incompleta, mas corrijo
agora, a revolução capitalista foi completa, o Brasil é sem
dúvida um país capitalista, mas não completou sua revolu-
ção nacional.
A formação do Estado-nação em um país na periferia
do capitalismo é sempre uma revolução nacional que, em
conjunto com a revolução industrial, constituem a revolu-
ção capitalista. Essa revolução teve duas fases: a primeira, de
1930 a 1960, liderada por Getúlio Vargas; a segunda, de 1967
a 1980, pelos militares desenvolvimentistas. A primeira fase
foi marcada por um caráter anti-imperialista mais pronun-
ciado, com uma rejeição ao liberalismo que impedia a indus-
trialização da periferia. Era a visão desenvolvimentista de
Raúl Prebisch, Celso Furtado, e tantos outros. Nessa época,
era possível falar em uma burguesia nacional emergente. Na
segunda fase, embora a ideia de priorizar o capital e o traba-
lho nacionais em relação ao capital estrangeiro continuasse
presente, compromissos foram feitos, como a formação de
alianças na indústria petroquímica entre capitais nacional,
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estatal e multinacional (Evans, 1979). Ambas as fases foram
desenvolvimentistas e o Brasil se industrializou.
Nestor Duarte (1938) e Azevedo Amaral (1938) estive-
ram entre os primeiros intelectuais que se integraram ao
projeto de industrialização de Vargas e, naquele momento,
pensaram o Brasil. Já aqueles que primeiro perceberam
que o Brasil estava realizando sua revolução nacional e
capitalista foram os intelectuais do Instituto Superior de
Estudos Brasileiros (Iseb): Hélio Jaguaribe (1953, 1962),
Ignácio Rangel (1953), Guerreiro Ramos (1955, 1963) e
Álvaro Vieira Pinto (1956), que escreveram sobre o Brasil
a partir do início dos anos 1950 quando Vargas voltara a
governar, mas agora de forma democrática. A Comissão
Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), órgão
da Organização das Nações Unidas (ONU) do qual Celso
Furtado fez parte entre 1949 e 1957, dois anos antes da
publicação de A Formação Econômica do Brasil (1959), tinha
uma visão semelhante à do Iseb, embora sua análise fosse
mais econômica do que política.
Entre 1930 e 1980, o Brasil se constituiu como nação
e se industrializou. A ideia central era a de que se formara
uma coalizão de classes desenvolvimentista que associava a
nova classe de empresários industriais, a nova burocracia
pública moderna, os trabalhadores urbanos, e setores da
oligarquia pré-industrial – os criadores de gado no Sul e
no Nordeste que não eram exportadores de commodities e,
assim, não estavam presos ao liberalismo econômico.
Em 1964, depois de grave crise econômica e política,
os militares assumem o poder. Diante do golpe militar, o
marxista Andre Gunder Frank, com o ensaio “O desenvol-
vimento do subdesenvolvimento” (1965) funda a ‘teoria
da dependência’, que faz a crítica da tese isebiana e cepa-
lina da coalizão de classes desenvolvimentista fundada por
Vargas que contava com uma burguesia nacional. Em livro
de 1966, Celso Furtado, muito distante de tal teoria, prevê
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a estagnação da economia latino-americana, mas dois anos
depois o Brasil volta a crescer ainda mais aceleradamente do
que antes. É o ‘milagre’ que dá origem à teoria da depen-
dência associada de Fernando Henrique Cardoso e Enzo
Faletto (1969), que explicam o desenvolvimento econômico
ocorrido até aquele momento pela participação das empre-
sas multinacionais no desenvolvimento econômico. Os dois
autores afirmavam que as empresas multinacionais estavam
contribuindo para o desenvolvimento do Brasil ao investir
na indústria. Os Estados Unidos e os demais países ricos não
seriam imperialistas; não se opunham à industrialização. Na
verdade, se opunham e continuam a se opor. Uma coisa são
as empresas, que querem conservar seus mercados, outra
coisa são os governos imperiais que se opõem à industrializa-
ção da periferia para evitar concorrência futura na exporta-
ção de bens manufaturados e para manter a troca desigual.
Apenas em 2003, eu compreendi o que era a teoria da
dependência associada e porque ela fora a base da ‘política
de crescimento com poupança externa’ do governo Cardoso
(1995-2002), cujos resultados haviam sido lamentáveis: duas
crises externas e crescimento muito baixo. Em “Do ISEB
e da CEPAL à teoria da dependência” (Bresser-Pereira,
2005) fez a crítica acima e propôs que desde 1930 até então,
a sociedade brasileira se revelava ‘nacional-dependente’3.
A teoria da dependência associada só tinha em comum
com a teoria da dependência original de Gunder Frank, Ruy
Mauro Marini (1969; 1973) e Theotonio dos Santos (1967)
a rejeição da possibilidade de uma burguesia nacional no
Brasil. Havia nela também um certo marxismo, que logo
foi esquecido. Gunder Frank, como antes os nacionalis-
tas anti-imperialistas como Prebisch e Furtado, criticava a
3 Iseb (Instituto Superior de Estudos Brasileiros) foi uma instituição do Ministério
da Educação, fundada em 1955 e extinta em 1964, que reuniu alguns importan-
tes intelectuais nacionalistas antes associados ao Instituto Brasileiro de Economia,
Sociologia e Política (Ibesp).
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dependência que era vista como o outro lado da moeda do
imperialismo; já Cardoso e Faletto primeiro constataram,
mas ainda no livro de 1969 passaram a vê-la como boa –
como a única saída para o Brasil e o restante da América
Latina. Celebravam, assim, a dependência associada.
Entretanto, durante o regime militar, os intelectuais de
esquerda, que lutavam pelo retorno da democracia e pela
diminuição da desigualdade, não perceberam o caráter
entreguista da dependência associada e, assim, se alienaram
do desenvolvimento econômico que estava acontecendo.
Para Florestan Fernandes, passados 20 anos dos tra-
balhos seminais do Iseb e da Cepal, escreveu A Revolução
Burguesa no Brasil (1975), o Brasil iniciou sua revolução bur-
guesa, mas não a completou. Para ele, a burguesia “se define,
em face de seus papéis econômicos, sociais e políticos, como
se fosse a equivalente de uma burguesia revolucionária,
democrática e nacionalista. Propõe-se, mesmo, o grandioso
modelo francês da revolução burguesa nacional e democrá-
tica”. Considerando, porém, “quão emaranhado e desnor-
teante foi o desencadeamento da Revolução Burguesa numa
economia colonial, periférica ou dependente” (1975, p. 215,
p. 89), Florestan concluiu que a burguesia não logrou reali-
zar uma revolução nacional e democrática. Pelo contrário,
presa no quadro do capitalismo mundial, essa burguesia
não soube conservar sua independência nem soube cami-
nhar em direção à democracia: tornou-se uma burguesia
dependente e autocrática. Dependente, ainda que naquele
tempo a burguesia se declarasse nacional. Autocrática,
porque estávamos no regime militar. Bresser-Pereira,
entendeu essa situação, nos anos 1970, como um ‘subde-
senvolvimento industrializado’ – dado o fato que o Brasil
se industrializava, ainda que os salários não aumentassem
devido à repressão dos sindicatos, o que deveria resultar em
insuficiência de demanda. Mas, em compensação, subiam
os ordenados da classe média, especialmente os da classe
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média gerencial, produzindo-se assim um aumento da desi-
gualdade, enquanto se garantia a demanda para a produção
das empresas multinacionais de automóveis e outros bens de
luxo (Bresser-Pereira, 1977).
Florestan errou ao não reconhecer o razoável naciona -
lismo da burguesia industrial daquela época, mas acertou no
principal. Como ficou comprovado em 1990, com a abertura
comercial e financeira e o apoio da burguesia à submissão
do Brasil aos Estados Unidos, a revolução nacional brasileira
não se completou, e o Brasil voltou a ser uma semicolônia,
embora pudéssemos dizer que a revolução capitalista havia
se completado – uma revolução capitalista sem revolução
nacional, sem que o país assumisse o comando do seu pró-
prio destino.
Durante os anos 1980, com a crise da dívida externa e alta
inflação inercial que se seguiu, a economia brasileira estag-
nou. A partir do início dos anos 1990, depois de resolver o
problema de sua dívida externa e controlar a inflação com o
Plano Real, era de se esperar que a economia brasileira vol-
tasse a crescer, mas não foi isso que aconteceu: de estagnada
passou apenas a quase estagnada, crescendo menos que os
países ricos e deixando de realizar o alcançamento.
Cultura Alienada
O subdesenvolvimento brasileiro sempre teve um cará-
ter cultural, fruto de um complexo de inferioridade cultu-
ral ou, como afirmou famosamente Nelson Rodrigues, fruto
do ‘complexo de vira-lata’. Guerreiro Ramos (1954, p. 75)
afirmou que a cultura brasileira era transplantada. “A trans-
plantação foi um acidente inevitável da formação brasileira,
um acidente normal e não patológico em todos os contex-
tos coloniais”4. Roland Corbisier (1956, p. 203) viu o Brasil
4 Esta citação é tirada de Corbisier (1956, p. 207). Não tive acesso ao texto todo
de Guerreiro Ramos.
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como marcado pelo ‘complexo colonial’. O que caracteriza
as sociedades marcadas pelo complexo colonial “é a radical
inautenticidade, quer dizer, a carência de originalidade ou
de ‘ser’ próprio. A duplicidade, a transplantação, o amor-
fismo, a heteronomia, todos os caracteres do complexo
colonial, decorrem a nosso ver dessa radical alienação que é
constitutiva do próprio complexo”. Corbisier destacou que
a cultura brasileira é transplantada dos países ricos sem crí-
tica, é mimética e heterônoma. Ele afirmou que os países
colonizados exibem um caráter mimético resultante de sua
posição global.
A cultura brasileira é alienada, pois não se autodeter-
mina. Roberto Schwarz escreveu um clássico ensaio “As
ideias fora do lugar” (1981, p. 19, p. 24, p. 22), no qual ele
vê o Brasil como uma “experiência de desconcerto – a sensa-
ção que o Brasil dá de dualismo e factício”. E concluiu: “Ao
longo de sua reprodução social, incansavelmente, o Brasil
põe e repõe as ideias europeias, sempre em sentido impró-
prio… A cultura é ornamental… As ideias liberais não se
podiam praticar e eram ao mesmo tempo indescartáveis”.
José de Souza Martins (2013, p. 13), por sua vez, observou
que o Brasil é o país do fingimento: “o fingimento se tor-
nou uma característica evidente da sociedade brasileira
[…]. O vocabulário sociológico foi raptado para que com
ele fosse elaborada a linguagem de um novo conformismo,
pós-moderno, em que se finge ser o que de fato não é, cami-
nhando para permanecer”.
A cultura brasileira, portanto, sempre foi influenciada
senão determinada pelo pensamento da metrópole. No
período colonial e semicolonial, o nível cultural da oligar-
quia proprietária de terras e dos grandes comerciantes em
grande parte mercadores de escravos era muito baixa. Com
a industrialização, isto poderia ter mudado, mas em relação
aos empresários mudou muito pouco. Não se pode espe-
rar que sejam intelectuais, mas seria razoável que tivessem
Brasil, racismo, nacional-dependência e quase-estagnação
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um interesse e um conhecimento maior da economia e da
política. Não têm. Já se supõe que os intelectuais têm uma
visão integrada da realidade nacional e internacional – afi-
nal são pagos para tê-la – mas isto não é verdade. Em muitos
momentos, sua alienação é gritante.
Essa alienação dos intelectuais, especialmente dos
economistas, é até um certo ponto inevitável. O poder da
hegemonia ideológica americana sobre o Brasil, o poder
da sua imprensa, do seu cinema, de suas universidades é
muito grande; já a contrapartida crítica aqui é modesta.
Some-se a isto a política desenvolvida pelo Departamento
de Estado através da USAID (US Agency for Internacional
Development) de fornecer bolsas de estudos nos Estados
Unidos a jovens acadêmicos promissores, posta em prática
principalmente nos anos 1970. Especialmente em relação
aos economistas, essa política foi certeira. Os economistas
formados nos Estados Unidos voltavam invariavelmente for-
mados na teoria neoclássica, a base teórica do neolibera-
lismo, e chegavam aqui alienados.
Um outro fator decisivo para a alienação cultural dos
intelectuais brasileiros foi o amplo domínio da teoria da
dependência associada nos anos 1970 e 1980. Nos anos
1950, como o Iseb, o nacionalismo estava associado à luta
pelo desenvolvimento econômico e a Getúlio Vargas; já em
relação aos anos 1960, como Marcelo Ridenti (2014, p. 1)
observou, “de fins dos anos 1950 ao início dos anos 1970,
nos meios artísticos e intelectualizados da esquerda, era cen-
tral o problema da identidade nacional e política do povo
brasileiro: buscavam a um tempo suas raízes e a ruptura com
o subdesenvolvimento”. Havia naquela época um ‘roman-
tismo revolucionário’, uma expressão que empresto de
Michael Löwy e Robert Sayre (1995). Algo que muda para
a alienação depois que a ‘dependência associada’ se tornou
interpretação dominante entre as esquerdas brasileiras. Elas
lutaram pela democracia e a diminuição da desigualdade,
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mas perderam consciência crítica em relação ao Império ao
ser esquecida ou colocada em segundo plano sua vinculação
com a nação.
Considerada essa inautenticidade radical, como foi pos-
sível que o Brasil, entre 1930 e 1980, associasse nacionalismo
econômico e intervenção do Estado e realizasse sua revolu-
ção capitalista? Certamente a liderança desse processo não
coube aos próprios beneficiados – os empresários industriais
– mas aos políticos e militares que dirigiram o país nesse
período. Coube, principalmente, a Getúlio Vargas, que mar-
cou com suas ideias e sua ação o período que vai de 1930
a 1964, e aos militares conjuntamente com uma série de
políticos eminentes que com ele colaboraram5. Entre 1964
e 1980, a liderança coube aos próprios militares que haviam
acreditado na tese da guerra iminente entre os Estados
Unidos e a União Soviética e da necessidade de o Brasil se
aliar ao Ocidente, mas conservavam a lembrança do nacio-
nalismo herdado dos tenentistas dos anos 1920.
Na verdade, o nacionalismo nunca é esquecido. A iden-
tificação com o país em que se nasceu é algo quase natural
no ser humano. Por isso e porque o Brasil desde os anos
1980 não cresce e não oferece novas oportunidades, é pos-
sível, porém, identificar em um número crescente de jovens
intelectuais de classe média uma crescente indignação com
a falta de crescimento do país e, portanto, com a falta de
oportunidades de emprego para eles. Mais do que isto, com
a falta de perspectivas para o Brasil. Eles sabem que o Brasil
é um país de privilégios, ou em outras palavras, de captura
do patrimônio público sob a forma de juros cobrados do
Estado muito maiores do que os necessários para contro-
lar a inflação, de subsídios e desoneração de impostos sem
nenhuma lógica a não ser os interesses dos beneficiados,
seus assessores e consultores.
5 Cf. Fonseca (1989) e Lira Neto (2012).
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Sociedade civil forte e democracia consolidada
A nação pode ser fraca, incompleta, mas a sociedade
civil é forte. As mesmas pessoas e organizações participam
das duas formas de organização política informal da socie-
dade – a nação e a sociedade civil – a primeira voltada para
o desenvolvimento e a ordem, a segunda, para a justiça e a
democracia. A sociedade civil brasileira tem-se demonstrado
surpreendentemente vigorosa. Veja-se o papel que desem-
penhou na transição democrática; considere-se a luta que
os sanitaristas e as mulheres fizeram pela criação do SUS. A
defesa recente da democracia ameaçada demonstrou bem
essa força.
A democracia brasileira é uma democracia modesta em
um país subdesenvolvido no qual a maioria da população
tem dificuldade em definir e defender seus interesses. Além
disso, setores autoritários senão fascistas ganharam poder
desde as manifestações de junho de 2013. Foi quando as
classes médias deram uma guinada para a direita. Espremida
entre os pobres, que o governo progressista da época pro-
curava defender, e os muito ricos que continuaram a pros-
perar, uma baixa classe média ressentida deu apoio a uma
extrema direita nacional-populista que nunca havia se mani-
festado antes. Isto não estava acontecendo apenas no Brasil.
No mundo rico, surgia também uma extrema-direita nacio-
nal-populista que refletia o ressentimento das classes médias
brancas que perderam empregos diante da globalização e
do neoliberalismo.
A democracia brasileira é uma democracia consolidada.
Em trabalho de 2011, eu desenvolvi a tese que a democra-
cia de um país só se torna consolidada quando a transição
para a democracia ocorre depois deste país ter realizado
sua revolução capitalista. A partir de então a burguesia
passa a se apropriar do excedente econômico no mercado,
enquanto nas sociedades pré-capitalistas requeria o con-
trole direto do Estado e o uso de sua força. A burguesia
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é assim a primeira classe dominante que não impõe um
veto à democracia. Esse é o caso do Brasil desde que, tendo
já completado sua revolução capitalista, em 1985 adotou o
sufrágio universal e se tornou uma democracia consolidada.
Ela pode enfrentar duros ataques, como aconteceu no
governo de Jair Bolsonaro, mas sobrevive. Algo semelhante
ocorreu nos Estados Unidos, muitos cientistas políticos
no Norte afirmaram que a democracia estava morrendo,
mas não foi isto que aconteceu. Nas sociedades capitalistas
modernas mesmo a classe dominante não está disposta a se
submeter a um ditador.
A democracia nos países ricos e em muitos países de
renda média é deliberada pelas classes dirigentes. Estas
sabem que o Estado não é simplesmente um defensor dos
seus interesses; que ele pode também ser o instrumento da
nação e da sociedade civil para realizar os objetivos políticos
de fortalecimento da democracia, redução da desigualdade,
promoção do desenvolvimento e proteção do ambiente e
não querem que essas ações defendam ‘excessivamente’ os
trabalhadores e os pobres. A democracia ideal para a bur-
guesia e a classe gerencial é a democracia ‘schumpeteriana’,
na qual o povo apenas elege os governantes a cada nova elei-
ção, porque no intervalo entre duas eleições os ‘represen-
tantes’ do povo governam em nome não do próprio povo,
mas das elites econômicas e tecnoburocráticas que querem
aumentar respectivamente seus lucros e seus ordenados.
No quadro de um sistema presidencialista, não inte-
ressa a essas elites serem obrigadas a fazer concessões a um
Presidente da República poderoso porque eleito pelo voto
direto do povo. Para reduzir o poder do presidente, a solu-
ção aventada foi a do parlamentarismo, mas o referendo
previsto na Constituição de 1988 mostrou rejeição clara
ao parlamentarismo. Nela, porém, já se previa a existên-
cia de um Senado, que reduz o poder do povo dos estados
com maior número de habitantes e, o que foi mais grave,
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a adoção de um sistema eleitoral proporcional com listas
abertas, no qual são eleitos os deputados mais votados em
cada estado, dado o número de votos que o partido político
recebeu. Esse sistema, além de tornar o parlamentar muito
afastado dos seus eleitores, torna impossível que o partido
político do presidente eleito alcance senão a maioria pelo
menos um número suficiente de votos para tornar o país
governável6. A alternativa que os presidentes encontraram
a partir de 1990 para contornar esse problema foi chamado
‘presidencialismo de coalizão’ – a prática de o Presidente
conceder ‘favores orçamentários’ aos deputados para serem
reeleitos em troca de seu apoio. Essa prática, porém, perdeu
grande parte de sua eficácia porque os deputados federais
passaram a se dar cada vez mais poder em detrimento do
poder do presidente ao tornar o orçamento impositivo e
ao adquirir o poder de reservar para si as verbas previstas
no orçamento que antes estavam submetidas ao governo e
às políticas por ele definidas. Assim, o Brasil é hoje prati-
camente ingovernável – não tem maioria parlamentar, não
consegue ver muitos de seus projetos aprovados e muitos de
seus vetos são rejeitados. Esse sistema de eleições propor-
cionais e listas abertas é, assim, uma permanente causa de
crise política e a principal causa política da quase-estagna-
ção econômica.
A democracia está garantida, mas a desigualdade con-
tinua muito grande, o Brasil continua a ser um dos países
mais desiguais do mundo, e ela parece resistente a todos que
tentam reduzi-la. O elevado aumento das despesas com edu-
cação fundamental que passou a ocorrer desde o governo
Cardoso deveria ter resultado na diminuição da desigual-
dade, mas isto não aconteceu. No início dos anos 2000, com
6 Além de determinar uma baixíssima representatividade dos deputados federais
que são eleitos por currais eleitorais onde o que importa para o político que se can-
didata pela primeira vez é dispor de dinheiro para financiar sua eleição, resultando
daí um parlamento conservador.
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a vitória do Partido dos Trabalhadores (PT), elegendo Luiz
Inácio Lula da Silva presidente da República, o governo
deixou para segundo plano o desenvolvimento econômico
e deu prioridade à melhor distribuição de renda. Foram
alcançados alguns resultados, especialmente devido ao
aumento real do salário-mínimo e a lei de cotas em favor dos
negros e dos alunos de escolas públicas, mas, novamente, a
desigualdade pouco se reduziu. O capitalismo cria automati-
camente a desigualdade na medida em que a acumulação de
capital aumenta incessantemente o total de lucros da socie-
dade e o total de ordenados dos gerentes, enquanto o total
dos salários não aumentam proporcionalmente aos lucros,
ainda que a taxa de lucro permaneça constante.
Os trabalhadores perdem espaço na sociedade brasi-
leira, mas o mesmo não pode ser dito dos negros. Nos últi-
mos 30 anos o movimento negro ganhou grande impulso
e está logrando defender melhor os direitos de seus cida-
dãos, enquanto só recentemente o movimento indígena
vem ganhando força. A lógica geral da elite branca na fron-
teira da expansão capitalista, porém, mantém como objetivo
eliminar os indígenas, como isso foi feito no passado nos
Estados Unidos e na Argentina.
Quase-estagnação
A economia brasileira está quase-estagnada há 45
anos. Nos anos 1980, essa estagnação foi devida a um fato
externo – a brutal elevação dos juros nos Estados Unidos
em 1979 que, somada ao endividamento externo nos anos
1970, estimulado e proporcionado pelos bancos dos países
ricos, levaram a economia brasileira e a de toda a América
Latina à moratória, a violentos ajustes fiscais, à depreciação
da moeda, à alta inflação inercial e à estagnação. O pro-
blema da dívida externa foi resolvido no início dos anos
1990 com a aplicação do Plano Brady que usou, ponto por
ponto, o plano que Bresser-Pereira havia proposto 18 meses
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antes como Ministro da Fazenda (Bresser-Pereira, 1999). A
inflação inercial foi resolvida com a teoria da inflação iner-
cial que Bresser-Pereira e Yoshiaki Nakano desenvolveram
(1983), e pelo método de neutralizar a inércia, proposto por
André Lara Rezende (1984).
A partir da solução, no início dos anos 1990, e resolvi-
dos os problemas da dívida externa e da alta inflação iner-
cial, era de se esperar que o Brasil voltasse a crescer, mas
não foi isto que aconteceu. A economia brasileira entrou
em um regime de quase estagnação que dura até hoje. O
crescimento é inferior ao dos Estados Unidos, deixando o
Brasil de fazer o alcançamento (catching up). Como explicar
isso? O crescimento do país, o aumento sustentado da pro-
dutividade e da renda per capita depende principalmente
da taxa de investimento. Ora, esta tem permanecido muito
baixa devido a dois fatos históricos novos: já a partir de 1980,
a queda do investimento público e, desde 1990, a taxa de
câmbio que se apreciou para a indústria de forma cíclica,
tornando as empresas que usam a melhor tecnologia inca-
pazes de exportar e sendo obrigadas a ver sua produção ser
substituída por importações.
Há três causas que explicam a tendência da taxa de câm-
bio se apreciar crônica e ciclicamente no Brasil, todas deri-
vadas do fato que, em 1990, depois de 50 anos de grande
crescimento no quadro do nacional-desenvolvimentismo
(1930-1980) e de uma crise de 10 anos, o Brasil se submeteu
aos Estados Unidos, abandonou o desenvolvimentismo em
troca do liberalismo econômico, e adotou as políticas libe-
ral-ortodoxas, começando pela abertura comercial e a aber-
tura financeira. A abertura comercial implicou a redução das
tarifas aduaneiras para a importação de manufaturados, de
45 para 12%, e a eliminação dos subsídios à exportação de
manufaturados, que era também de 45%. Essas tarifas e subsí-
dios eram realmente muito altos, mas ambos não constituíam
mera proteção indevida à indústria instalada no Brasil. Eram
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usados para neutralizar a doença holandesa que é própria
de países exportadores de commodities. A doença holandesa
é uma súbita apreciação da moeda nacional causada por um
boom de commodities. Com o aumento dos preços internacio-
nais das commodities, a taxa de câmbio se valoriza não para
as próprias commodities, mas para as empresas industriais que
requerem uma taxa de câmbio substancialmente mais depre-
ciada para se manterem competitivas internacionalmente.
Por isso a taxa de câmbio é, no Brasil, cíclica, só voltando à
‘normalidade’ quando os preços das commodities voltam a cair
e a doença holandesa deixa de existir. Ela é crônica por um
outro motivo. Desde 1970, quando os bancos internacionais
voltaram a dar crédito aos países latino-americanos (crédito
que havia sido suspenso em 1929 com o crash da Bolsa de
Nova York), esses países voltaram a incorrer em déficits na
conta corrente. Dessa maneira as entradas de capitais para
financiar o déficit se tornaram maiores que as saídas, e a
taxa de câmbio se mantém apreciada no longo prazo, croni-
camente, enquanto durar o déficit. Assim, sob a hegemonia
ideológica dos Estados Unidos, o Brasil deixou-se convencer
que o liberalismo econômico era preferível ao desenvolvi-
mentismo. Não por acaso, parou de fazer o alcançamento
enquanto retrocedia à condição semicolonial.
Conclusão
Além de orgulhosa de si mesma, uma boa sociedade é
uma sociedade coesa. Foi isso que ensinou Émile Durkheim
quando escreveu sobre a solidariedade orgânica, que defi-
niu como interdependência e complementaridade. A nação
que surge com o capitalismo só é forte quando ela alcança
uma razoável unidade – quando se torna orgânica. A falta
de homogenia racial, como a desigualdade social, dificulta
a coesão social. Por isso, quando dizemos que a sociedade
brasileira é mestiça, estamos buscando encontrar uma uni-
dade no seu caráter mestiço. Uma coesão que não impede a
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luta de classes. Uma coesão cujo inimigo maior não é a mes-
tiçagem, mas a dependência das elites econômicas e políti-
cas em relação aos Estados Unidos imperial. Os inimigos de
uma maior coesão do povo brasileiro são o racismo, a desi-
gualdade social que aqui é maior do que na grande maioria
das sociedades capitalistas, e a dependência em relação ao
Império, que se opõe a uma maior integração da sociedade
e à industrialização do Brasil. Em 1990, depois de dez anos
de crise do modelo nacional-desenvolvimentista e de tam-
bém de dez anos de pressão ideológica neoliberal (depois
da Virada Neoliberal de 1980 nos Estados Unidos e no Reino
Unido), o Brasil se submeteu ao Império e realizou a aber-
tura comercial e financeira. Suas elites identificara então
com o Império e rejeitaram o nacionalismo econômico ou
desenvolvimentismo que fora adotado entre 1930 e 1980 e
levara o Brasil a se industrializar de forma acelerada e com-
pletar sua revolução capitalista.
O Brasil é um país mestiço, mas suas elites, que são ou se
julgam brancas, desprezam a grande maioria parda e negra,
e se identificam com as elites brancas dos Estados Unidos
e da Europa. É, portanto, um país em que o racismo conti-
nua muito forte. Mas desde a transição democrática de 1985
surgiu um forte movimento negro, enquanto os setores pro-
gressistas da sociedade vêm criticando duramente o racismo
e logrando avanços importantes como foi a lei de quotas.
O Brasil não é mais um país patrimonialista, nem um país
mercantilista, mas é um país capitalista. Entre 1930 e 1980,
completou sua revolução capitalista no quadro do desenvol-
vimentismo. Sua grande realização desde então foi a tran-
sição para a democracia em 1985, institucionalizada com a
Constituição de 1988. Depois de uma grande luta que uniu
a nação, conseguimos chegar a um texto que colocou em
segundo plano o liberalismo e deu a importância necessária
ao social, estabelecendo assim as bases de uma social-demo-
cracia. Talvez fosse cedo para isso, mas a grande realização da
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democracia brasileira foi a criação do SUS (Sistema Único de
Saúde), um sistema de saúde universal melhor do que pode-
ria se prever dado o nível da renda per capita brasileira. Nesse
processo, assim como na recente resistência ao surgimento de
uma extrema-direita nacional-populista, que reflete de forma
irracional o fracasso do neoliberalismo em criar melhores
condições de vida para a população, vemos que a sociedade
civil brasileira continua viva e atuante.
Com a Virada Neoliberal a partir de 1980, o mundo oci-
dental mergulhou no neoliberalismo e o progresso social foi
quase paralisado. Dez anos depois, o neoliberalismo chegou
ao Brasil e se impôs às suas elites econômicas e políticas –
uma elite econômica que deixara de ser principalmente de
empresários para ser formada por capitalistas rentistas, her-
deiros dos empresários, e por financistas bem-preparados
que administram a riqueza dos financistas. Com a domina-
ção dessa nova elite, assistimos à brutal captura do patrimô-
nio público através de altas taxas de juros, e a subordinação
a uma elite externa que nos vende o liberalismo econômico
para nos manter subdesenvolvidos.
O Brasil, portanto, não completou sua revolução nacio-
nal. Primeiro, porque sua cultura se manteve caracterizada
por um grave complexo de inferioridade cultural; segundo,
porque depois de 10 anos de crise, o país se submeteu em
1990 aos Estados Unidos e realizou a abertura comercial e
financeira. Com isso, eliminou o sistema de elevadas tarifas
aduaneiras que vinha sendo usado para neutralizar a doença
holandesa e, em consequência, as empresas industriais situa-
das no Brasil que usavam a melhor tecnologia perderam
competitividade e o país entrou em uma profunda desindus-
trialização prematura. A indústria que representava cerca de
25%, hoje representa 10% do Produto Interno Bruto (PIB).
Sempre me perguntam e eu também me pergunto se
o Brasil voltará a crescer de maneira satisfatória ao mesmo
tempo que reduz a desigualdade e contribui para o combate
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do aquecimento global. Confesso que não estou otimista.
No plano político, o Brasil conta com um Estado melhor
do que a caricatura desenhada pelos liberais. Desde 1988, o
país possui uma bela Constituição e uma burocracia pública
bem estruturada, com a maioria de servidores públicos com-
prometidos com o interesse público. Mas vemos também um
número crescente de jovens bem formados que emigram
por falta de oportunidades aqui.
Apesar dessas adversidades, a sociedade civil brasileira é
forte e engajada na defesa da democracia. A transição para a
democracia ocorreu quando o Brasil já havia razoavelmente
completado sua revolução capitalista, consolidando um
sistema democrático mínimo que garante os direitos civis,
o voto para todos e eleições livres. No entanto, a qualidade
da democracia deve ser aprimorada, e ela está constante-
mente ameaçada. Resistindo a golpes e ameaças, a maioria
tem demonstrado uma sociedade civil resiliente que asse-
gura a democracia.
Em resumo, o Brasil é uma sociedade capitalista em
que a revolução nacional foi interrompida, deixando sus-
penso o necessário desenvolvimento. Enfrenta desafios
como a dependência econômica e cultural, a desigualdade
e o racismo. Apesar disso, conta com uma sociedade civil
forte, comprometida com a defesa da democracia, e com
um Estado bem-estruturado, embora com problemas de
representatividade e eficiência. Superar esses obstáculos exi-
girá esforços contínuos para construir um país mais justo,
desenvolvido e autônomo.
Luiz Carlos Bresser-Pereira
Professor emérito da Fundação Getulio Vargas onde leciona
desde 1959, e editor do Brazilian Journal of Political Economy
desde 1981. Foi Ministro de Estado (governos José Sarney
e Fernando Henrique Cardoso), e é membro fundador da
Comissão Arns de Defesa dos Direitos Humanos desde 2019.
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BRASIL, RACISMO, NACIONAL-DEPENDÊNCIA E QUASE-
ESTAGNAÇÃO
Resumo Este artigo oferece uma visão ampla do Brasil
hoje, uma realidade historicamente situada que só pode ser
entendida a partir de uma análise histórico-estrutural. O
Brasil é um país mestiço no qual a minoria branca ou bran-
queada é racista. É uma sociedade que completou sua revo-
lução capitalista, mas deixou incompleta a sua revolução
nacional iniciada em 1930. Suas elites, que durante 50 anos
foram relativamente nacionais, passaram a ser dependentes
a partir de 1990 em consequência da grande crise dos anos
1980 e da Virada Neoliberal ocorrida no Norte. Desde então
a economia brasileira está quase-estagnada. A democracia,
porém, está consolidada porque todas as classes sociais estão
determinadas a não se subordinar a um ditador.
Palavras-chave: Racismo; Nacionalismo; Revolução
Capitalista; Revolução Nacional; Democracia.
BRAZIL, RACISM, NATIONAL DEPENDENCE AND QUASI-STAGNATION
Abstract. The article offers a broad view of Brazil today, a historically
situated reality that can only be understood from a historical-structural
analysis. Brazil is a mestizo country in which the white or whitened
minority is racist. It is a society that has completed its capitalist
revolution but has left incomplete its national revolution that began
in 1930. Its elites, which for 50 years were relatively national, became
dependent from 1990 onwards as a result of the great crisis of the
1980s and the Neoliberal Turn that occurred in the North. Since
then, the Brazilian economy has been quasi-stagnant. Democracy,
however, is consolidated because all social classes are determined not
to subordinate themselves to a dictator.
Keywords: Racism; Nationalism; Capitalist Revolution; National
Revolution; Democracy.
Recebido: 06/08/2024
Aprovado: 28/02/2025
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