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Artigo doutrinário

Verity, de Colleen Hoover

Publicado originalmente em Consultor Jurídico (Conjur), em 18 de outubro de 2026

Em Verity, de Colleen Hoover, há um crime, cuja autoria sugere que se desvende um quebra-cabeças, cujas peças não se fecham

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Citação acadêmica

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ABNT
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. Verity, de Colleen Hoover. conjur_import, 18 out. 2026. Disponível em: https://conjur.com.br/2026-out-18/verity-de-colleen-hoover. Acesso via: JurisTube — Acervo Digital de Direito. Disponível em: https://juristube.com.br/colunistas/arnaldo-sampaio-de-moraes-godoy/verity-de-colleen-hoover. Acesso em: 7 nov. 2026.
APA
Godoy, A. S. D. M. (2026, October 18). Verity, de Colleen Hoover. *conjur_import*. https://conjur.com.br/2026-out-18/verity-de-colleen-hoover
Chicago
GODOY, Arnaldo Sampaio de Moraes. 2026. “Verity, de Colleen Hoover.” *conjur_import*, October 18. https://conjur.com.br/2026-out-18/verity-de-colleen-hoover
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Collen Hoover, escritora norte-americana (nascida em 1979), é uma das maiores best-sellers da atualidade. Sua carreira começa com livros que ela mesmo editou, quando trabalhava com Serviço Social e vivia num trailer com o marido e três filhos. Em 2016 foi festejada com o lançamento de “É assim que acaba”. Foi minha filha, Marina, leitura compulsiva de Collen Hoover, que me chamou a atenção para essa autora. O primeiro que li, “Verity”, valeu a pena. E há um filme também. É para minha filha que dedico esse comentário.

A leitura, e o filme, são de tirar o fôlego, embora as semelhanças entre ambos não sejam tão exatas. Há uma relação entre a autora ghost-writer e seu agente literário, que o filme apenas insinua. No livro há mais uma criança. Faz parte; o filme é uma adaptação do livro. A narrativa corre no estilo dos inimitáveis thrillers norte-americanos. Há vários temas que se entrelaçam nessa fascinante estória. O tema da autoria, o problema do ghost-writer, a relação entre obra escrita e obra filmada, e a integridade de quem escreve formam o pano de fundo conceitual da obra.

Para complicar (se quisermos complicar, inclusive extraindo da obra um pouco mais do que ela contenha), aponto uma discussão sobre a verdade (e aí o título, e o nome da personagem) e as várias construções de várias verdades. Retoma-se a pergunta de Pôncio Pilatos para Jesus Cristo (como se lê em João 18:38): o que é a verdade? Afinal, no livro (e no filme) qual das duas versões é a verdadeira: o relato do pen drive ou o bilhete da grande autora? Tem que ler o livro ou assistir ao filme para opinar. Melhor os dois.

O enredo também sugere um formato de romance policial, gênero que tem Allan Poe como pai fundador e que avança em uma linhagem que alcança Agatha Christie, Conan Doyle, Simenon, Chandler, Mannett, entre tantos outros. No Brasil, imperdível é a leitura de Garcia-Roza, bem como de Rubem Fonseca. Também necessária a lembrança do cubano Leonardo Padura. Há uma profusão de detetives que movimentam essas histórias: Auguste Dupin, Hercule Poirot, Miss Marple, Sherlock Holmes, Philip Marlowe, Alex Cross, Sam Spade, Delegado Espinosa, Mandrake, Mário Conde. Jô Soares também transitou no gênero, ainda que de forma cômica (O Xangô de Baker Street).

Imperdível “O mentalista”, em forma de seriado policial cujo detetive é um perfeccionista; observa tudo, e capta todos os pormenores. É a chave interpretativa para a resolução dos mistérios. Patrick Jane, o detetive, é um exemplo de raciocínio dedutivo aplicado. Um ex-vidente, transformado em detetive.

O bom romance policial é aquele que nos derruba quando descobrimos o assassino (ou os assassinos), que não conseguimos detectar no momento certo. Em Verity há um crime, cuja autoria sugere que se desvende um quebra-cabeças, cujas peças não se fecham, até que cheguemos na parte final do livro, ou do filme. Não há certezas; apenas há dúvidas, que se sobrepõem. 

Vamos ao enredo. É a estória de uma escritora talentosa (Lowen) porém pouco conhecida, contratada para dar continuidade a estórias de uma escritora muito conhecida (Verity Crawford), que se encontra em situação de quase total paralisia, após um acidente de automóvel. Na sequência de eventos inusitados e inesperados (o que chamo de contingência) a ghost-writer vai viver na casa da escritora famosa. O objetivo é decifrar e compreender suas notas, rascunhos e esquemas narrativos. Central no enredo é o marido de Verity, um agente imobiliário simpático (será?) que pode ser o eixo explicativo da trama.

As cenas que se passam na casa são aterrorizantes

Diversas perspectivas explicativas se confrontam. O leitor (ou no caso do filme, o espectador) é convocado para tomar partido. O sucesso da obra, penso, decorre essencialmente desse envolvimento. Alteramos nosso estado de espírito em relação a cada uma das personagens. Em questão de minutos decompomos respeito, comiseração, desconsideração e talvez até ódio.

É que, do ponto de vista criminal, há um filicídio (quando a mãe ou o pai matam o filho ou a filha) ou um vicaricídio (quando esse crime ocorre com o objetivo de se agredir ao outro cônjuge). O mais conhecido exemplo desse último caso é a peça “Medeia”, atribuída a Eurípedes, e que data do século V a.C. Afinal, no caso de “Verity” a mãe é culpada ou inocente pela morte da filha?

O filme é muito bom, embora haja um exagero na sexualização das cenas, o que não se contempla no livro. Anne Hathaway, Josh Hartnett e Dakota Johnson são os atores que tocam o filme. A direção é de Michal Showalter. Lowe, a ghost-writer, não é retratada como sonâmbula no filme, ao contrário do que ocorre no livro. Há várias outras dissemelhanças entre o filme o livro, ainda que o núcleo da narrativa seja preservado.

Cada leitor ou espectador torna-se cativo de um determinado problema colocado na estória. Há também o mercado editorial como força aglutinadora do enredo. Não se pode perder uma autora que vendia tanto; por isso, necessário que a produção continuasse, e que fosse conduzida por quem tivesse um estilo parecido.

A ghost-writer foi escolhida depois de um (ao que consta) atencioso escrutínio. A preocupação com narrativas com fundo psicológico unia as duas autoras. No fim do livro (ou do filme) o leitor (ou o espectador) descobre que algo mais as ligaria, talvez para sempre.

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